Curiosidade
A curiosidade humana é o desejo do ser humano de ver ou conhecer algo até então desconhecido. A curiosidade, porém, quando ultrapassa um limite pré-estabelecido pela ética social, como por exemplo a invasão de espaço alheio, pode ser reprimida. Alguns termos populares podem designar alguém demasiadamente curioso: xereta, intrometido, bicão, intruso.
Não me classifico em nenhum destes termos.
O frio daquela noite estava proporcionando um clima agradável para mim porém um momento de humor negro para Joana.
_ Não entendo até hoje os tecidos de lã que as pessoas usam no pescoço no inverno e insistem em chamar de cachecol. Eles deviam chamar de " FORCA". Isso vai asfixiar alguém algum dia no metrô. Imagina as manchetes dos jornais:
" Mais uma pessoa morta por cachecol preso na porta do metrô", " Asfixiada em um piscar de olhos" Ninguém notou sua morte até que seus olhos escaparam para fora como num filme de terror"...
_ Joana , você conseguiu criar 3 manchetes em um parágrafo? O que há de errado? Já estamos quase chegando. _ eu disse tentando acalmá-la, mas foi inútil.
_Quase chegando? Quero ver as manchetes do jornal quando morrermos nesta estrada macabra. Estou dirigindo há duas horas aqui e não consigo encontrar a saída para essa tal chácara. Bendita hora que resolvi ir nesta festa estranha..
Joana recebera um convite em um grande envelope preto somente com um endereço e uma chave. Entre tantos convites que ela recebe por fim de semana, este me chamou atenção e não precisei muito para convencê-la a me levar. Eu disse que seria uma boa ocasião para ela usar o novo vestido estampado que estava louco para ser exibido!
Assim que abri o envelope e a chave escorregou no meu colo percebi que não era algo simples, aquele tipo de convite com textura imitando tecido e impressão em relevo americano era bem claro para mim:
_Joana, esta festa é em uma mansão.
_ Eu só quero ver se chegarmos lá e encontrarmos um churrascão na laje.
O churrascão na laje ficou pairando no ar quando Joana parou o carro em frente ao enorme portão entre os muros de pedra com aparência de castelo abandonado. Um tanto cafona diga-se de passagem. Após Joana mostrar a chave na câmera, o portão se abriu automaticamente e entramos na pequena estrada de terra até a porta da mansão.
_ Nossa , Jane!! Você tinha toda razão! É uma mansão e é maravilhosa! Ai agora sim, fiquei animada!
Meu primeiro pensamento foi inevitável. Estamos em 2013. Quem são essas pessoas? A estrada macabra nos levou para o ano de 1513. Que legal, máquinas do tempo realmente existem.. bom saber!
Após alguns minutos de vinho, Joana encontrou alguns conhecidos e esqueceu completamente minha presença. Bom... nós não nascemos e morremos acompanhados, certo? Com exceção de gêmeos siameses, que nascem acompanhados, nós fazemos isso sozinhos. Pois então, podemos fazer qualquer coisa sozinhos.
Enquanto eu caminhava calmamente pelos corredores da exagerada mansão, o barulho da festa ia diminuindo. Os corredores começaram a parecer menores e com algumas portas trancadas. A decoração das portas eram todas com inspiração do período Barroco. Esculturas perfeitas de anjos que pareciam sair de dentro das paredes em sua direção querendo dizer algo. Minha curiosidade me levava por mais corredores até que encontrei uma porta aberta. Não seria eu se não entrasse.
_ O que está fazendo aqui?
Levei o maior susto da minha vida.
_Desculpe, é uma biblioteca, certo? E estava com a porta aberta, eu tenho a chave para a festa.. não estou invadindo. _ tentei me defender um pouco atrapalhada
_ A festa é no salão principal, deve ter andado muito para chegar até aqui. O que houve? Ficou entediada?
Em uma das prateleiras pensei ter visto o olho de um dragão na capa de um livro. Me aproximei da prateleira e retirei o livro de cima do monte desorganizado.
_ Ah que ótimo agora além de invasora você decide ler um pouco?
_ Este livro tem uma característica bem diferente das demais obras de Stephen King.
_Sim, ele escreveu pensando em criar algo especial para sua pequena filha.
_ Parece que ele está contando uma lenda em voz alta.
_Sim, é uma fábula.
_ Gosta de livros de terror?
_ Não, mas você parece uma mulher meio macabra, nem vou perguntar.
_ Pois é, minha "macabrice" não combina com a época. Eu sou do futuro.
_Como?
_ Vim do ano de 2013, por uma estrada escura que cruza uma floresta.
_E posso perguntar em que ano você acha que está?
_ Pela decoração da casa, eu diria, 1513.
_ Ah sim..período Barroco, você gostou dos anjos?
_ Não.
_E se fossem demônios? Ficaria com medo?
_Não tenho medo de nada. Você deveria ter percebido isso quando me viu entrando na biblioteca.
_ Eu não durmo. Não me importo com a insônia, pelo menos tenho tempo para ler. Não me importo com a festa também, acho que as pessoas tem diferentes interesses, mas todos eles ali naquele salão se resumem a uma coisa...
_...dinheiro?
_ Sim.
_Acredita em demônios?
_Acredito que as pessoas possam materializar qualquer coisa que elas desejam. O cérebro é poderoso o suficiente para permitir isso. Nós o usamos o tempo todo mas não temos o poder para controlá-lo como queremos. O que existe na Terra não é somente o que você enxerga com seus olhos castanhos e humanos. Pode ver muito além se quiser.
_Por quê alguém iria desejar ver um demônio?
_ Não sei. Você deveria perguntar isso a si mesma, Jane, afinal de contas, você não só está me vendo como está conversando comigo...