segunda-feira, 19 de novembro de 2012

O Dragão


Eu aprendi a me desligar do planeta mesmo estando totalmente consciente. Quando uma situação me entendia, ou me deixa muito nervosa, ou mesmo uma pessoa com um assunto que não me interessa começa a falar, eu me distraio e consigo ignorar totalmente o que acontece em volta ficando desligada. Eu consigo ignorar tão bem que fico completamente surda. Na verdade não é tão difícil. Todas as pessoas possuem essa habilidade, elas só não sabem desenvolvê-la.


A areia estava tão quente que decidi caminhar perto da água. O mar estava muito forte e as ondas eram altas dando a sensação de que a praia seria inundada e seríamos carregados para a floresta. Mas eu não estava com medo. Era apenas uma sensação estranha e eu sabia que isso era impossível. Na verdade, se acontecesse, somente eu morreria.
Estávamos caminhando em direção ao leste e tudo que eu conseguia ver era um pequeno morro de pedras quando a areia terminava e começava um verde forte infinito que imaginei ser uma montanha. Estava tão longe que eu não conseguia ver as árvores, somente um verde forte. Eu conhecia a pequena duna que estávamos quase alcançando após quarenta minutos de caminhada entre o mar e a floresta, mas o Dragão me disse que ali não estava a maior beleza do local e eu acreditei nele. Havia algo diferente no final da caminhada e eu precisava ver.
Eu achava que a diferença não era na floresta ou na praia, mas sim no que o Dragão queria me ensinar. Ele era diferente. As florestas são todas iguais, conheço desde criança. Eu vi. 
Conforme chegávamos mais perto da montanha, as árvores começavam a ficar mais visíveis e claras. Era de um verde-musgo bem forte e eu podia ver os formatos das folhas e das plantas e as pedras eram muito altas tornando a passagem impossível. Como sairíamos dali? Eu teria que voltar caminhando por toda aquela praia? Eu estava exausta e estava começando a escurecer, pensei que voltaríamos pelo rio.
_Não se preocupe com a volta, pegaremos o barco. Eu posso remar.
_Não tem passagem. Onde está o rio? - perguntei desesperada.
Quando ele se virou para segurar minha mão percebi pelo seu olhar que o tom de desespero na minha voz o tinha ofendido, afinal de contas, eu deveria confiar nele. Estendi minha mão mais uma vez cega de curiosidade e me deixei levar por entre as árvores.
Continuei seguindo o Dragão dentro da floresta e vi a noite cair em um piscar de olhos. Quando chegamos perto do rio ele me lançou um olhar irônico e perguntou se eu ainda estava com medo.
_Não estou com medo. O que vamos fazer agora?
_Caminhe pelo rio.
_O que?
_ Caminhe pelo rio.
Ele quer que eu entre na água? Apesar do rio ser muito raso, eu tive medo de encontrar uma cobra, pois era impossível ver onde eu estava pisando naquela escuridão. Foi então que meus pés na água fizeram uma explosão de cores parecida com um show de luzes de uma rave.