segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Estradas

Quando eu era criança meus pais viajavam muito. Sempre fiquei enjoada. Aquelas curvas, a estrada sem fim, a sensação de que o caminho parecia o mesmo por horas e horas e o destino não chegava nunca. A estrada era minha maior inimiga. Eu cheirava limão, comia biscoitos japoneses sem gosto, biscoitos de água e sal, pão francês, nada adiantava. Carro, ônibus, estrada reta, estrada com curvas, caminhos curtos, caminhos longos, nada me salvava daquela sensação sofrida. Mas quando finalmente a estrada terminava e o destino me encontrava, era como se eu estivesse acordando de um pesadelo. Aquele sentimento de alívio quando você acorda e pensa: " Foi apenas um sonho ruim" era exatamente como eu me sentia. Porém, eu nunca desfiz as malas. Mesmo quando a viagem era longa, eu mantinha minha mala impecavelmente arrumada. Minhas irmãs tiravam todas as roupas das malas e penduravam nos novos "cabides temporários". É claro que elas adoravam essa minha mania estranha pois sempre sobrava mais espaço para elas pendurarem todos os vestidos, calças , blusas, um infinito de roupas. Eu sabia que a estrada me esperava e que mais cedo ou mais tarde eu sofreria novamente. Então eu deixava a mala pronta. Conforme fui crescendo, comecei a escolher as viagens. Comecei a diminuí-las também. Eu não tinha mais obrigação de ir a lugar nenhum, eu podia simplesmente ficar em casa. Era maravilhoso, era libertador. Os feriados chegavam e eu respondia com o maior prazer:
" Não vou viajar, quero apenas ficar em casa".
Até que um dia...

_Jane, preciso falar com você. Sei que você vai dizer não, mas preciso tentar.
Joanna tinha um poder de persuasão incrível que eu nunca tinha visto em toda minha vida. Anos mais tarde eu conheceria alguém pior...
_ O que você precisa? Dinheiro? Um carro novo? Jóias? Um namorado? Não tenho nada disso!
_ Quero que você viaje comigo por oito dias no Carnaval. Por favor! Vai ser maravilhoso!
_ Não tenho palavras para descrever como odeio estradas. Não vou. Odeio Carnaval também, e odeio praias durante o período de Carnaval. As pessoas não sabem se divertir. Sempre acontece algo ruim. Você está louca! As praias ficam lotadas , e as estradas?? É o caminho para o inferno, que a propósito, está coberto de boas intenções.
_ Jane, é uma praia ecológica, deserta. Só existe uma pousada, dois acampamentos e vamos ficar em uma casa de pescador. O acesso é por um rio de água doce.
Pensei na falta de tecnologia do lugar. Pensei no rio de água doce. Não sei quando nem como ela me ganhou, mas a frase que viria a seguir me deixou completamente inquieta:
_Ninguém conhece este lugar. É escondido.. confie em mim.. é o paraíso.
Quando terminei de arrumar a mala me dei conta de que estava completamente louca. Mas sempre há algo muito atraente em um lugar que não tem sinal de celular, internet, rádio, televisão, prédios e infraestrutura.
Levamos mais de cinco horas para chegar. Eu desci do carro e só havia mata selvagem em volta da pequena casa. Só havia um cômodo e um banheiro, porém a casa era nova em folha. Ninguém se hospedara lá ainda, éramos as primeiras.
Segui a única estrada de terra da Vila , rodeada de mata alta e selvagem por uns 10 minutos. Finalmente encontrei areia, desci um pequeno degrau, no meio das árvores, que estava quase fechado por dois galhos imensos cobertos por folhas verdes e perfumadas.  
O que vi depois me fez desarrumar as malas.


 

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

 

Surreal

"Quando a vida lhe oferece um sonho muito além de todas as suas expectativas, é irracional se lamentar quando isso chega ao fim". - Crepúsculo
 
Para uma garota entediada como eu, Bill C. era a distração perfeita. Eu sabia que estava fazendo algo extremamente errado e que me arrependeria profundamente algum dia, mas por ser errado, era simplesmente sensacional.
Você sabe quando está se aproximando do perigo porque seu corpo sente e te envia todos os sinais. Eu sentia e ignorava todos.
 
O barulho do bar era ensurdecedor. Tinha dois andares e estávamos no segundo. No primeiro andar uma banda de rock estava se preparando para subir no palco e as pessoas já se reuniam no pequeno espaço sem mesas para usufruir de um momento em suas vidas no qual elas não precisariam pensar ou se preocupar ou ouvir uma conversa inútil, elas poderiam apenas ficar ali com seus copos de bebida, de olhos fechados dançando ao ritmo de uma ou duas melodias organizadas em versos e refrão. Não era preciso analisar o drama ou conteúdo da música pois ninguém conseguia entender a letra, era o momento mais relaxante de suas semanas entediantes.
Bill conversava comigo bem perto do meu rosto pois estava difícil escutar algo além da música e pessoas falando, tilintares de copo, gargalhadas e brindes.
Eu conseguia escutar mas não conseguia prestar atenção no assunto, lembro que era algo sobre relacionamentos e pessoas que se prendem a relações que não se encaixam , ou pessoas que mudam seu comportamento para se adequar as expectativas de outra e manter seus relacionamentos fúteis e falsos com medo de terminarem solitários, tendo que viver semanas entediantes e fins de semana em bares infernais com músicas indecifráveis.
Eu concordava com tudo que Bill dizia, mesmo quando não entendia, criava alguma frase me enrolando toda tentando parecer inteligente, mas a única coisa que me passava pela cabeça era beijá-lo.
Quando senti o chão tremendo não resisti:
_ Estou sentindo o chão tremer diferente, acho que a banda começou a tocar. Eu duvido que você desça comigo e me beije no meio da multidão...
Foi a coisa mais idiota que eu já disse em toda a minha vida, mas por algum motivo que até hoje eu desconheço, funcionou. Talvez pela palavra " duvido" , talvez por ele ter encarado como um desafio, ou pelo simples motivo de querer me beijar também.
Foi surreal... eu fiquei ali parada esperando acordar. Mas eu não acordei, eu simplesmente vivi os melhores dez meses da minha vida.
 

domingo, 14 de outubro de 2012

Vinhos

Eu não estava com fome. O pacote de bolachas em cima da mesa tinha sido devorado por mim, não por estar nervosa ou algo parecido mas a única diferença entre uma refeição normal e um pacote de bolachas recheadas é o prazer sem medo.
A casa estava vazia, impecavelmente arrumada e limpa. Escutei a campainha bem na hora que me arrependi da escolha dos sapatos, mas agora era tarde. Peguei a bolsa, combinando perfeitamente com os sapatos, ambos prata com vestido transpassado vermelho de seda que deixava uma leve abertura na altura dos joelhos sem vulgaridade mas também sem nenhum romantismo inocente. Era estranho pensar que estava usando aquela roupa para alguém que me olhava como se eu fosse a própria Helena de Tróia, mas que ainda assim era um estranho.
O banco de couro do carro estava quente como se estivesse estacionado no sol o dia todo e me senti desconfortável assim que sentei.
_ Jane, você gostaria de ligar o ar condicionado?
_ Não, estou bem assim, obrigada.  - eu respondi olhando pela janela e pensando se teria algo lá fora que me proporcionasse um pouco mais de entretenimento.
_ Você  está maravilhosa como sempre. Encontrei seus amigos no Jockey Club ontem. Eles sentem sua falta. Me disseram que você nunca mais foi à cidade.
_ Não sinto saudades da cidade.
Quando chegamos no belíssimo restaurante, escolhido especialmente para a ocasião, eu me lembrei de tudo. Aquilo era familiar e conhecido. O manobrista impecavelmente vestido abriu a porta do carro e me deu a mão para ajudar a descer enquanto o estranho me esperava com o braço estendido para eu segurar sua mão enquanto caminhávamos em direção à mesa reservada uma semana antes. A louça, da melhor qualidade, posta sobre a mesa com todas as tradições antigas consideradas, e um silêncio absurdo como se o lugar estivesse completamente vazio.
_ Fiz o pedido para você, espero que não se importe. A comida aqui é maravilhosa, especialmente os frutos do mar.
Frutos do mar?? Não como frutos do mar. "Me pergunte quem eu sou antes de fazer o pedido para mim em um restaurante." Eu pensei mas não respondi, fiquei ali distraída com vontade de tirar os sapatos e sair correndo em direção a qualquer lugar que não me oferecessem frutos do mar com talheres de prata e taças de vinho branco. Eu não julgo e entendo que as pessoas sejam diferentes umas das outras, isso não significa que estejam certas ou erradas, somente que são diferentes. Não existe melhor e pior, não existem atitudes corretas ou incorretas. Fui criada para ser uma mulher formal e bem educada, para nunca falar palavrões e sempre ouvir pacientemente o que outros querem dizer.
Eu olhei a taça de vinho imaginando onde estaria a grama, onde estariam nossos chinelos, onde estariam os beijos roubados e apaixonados, os cigarros e as bebidas baratas, a música com letras dramáticas e melodias compostas por pessoas que vivem, que vivem algo diferente, criado no mundo especialmente para elas.



 

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Medo

O medo é provocado pelas reações físicas sendo iniciado com descarga de adrenalina no nosso corpo causando aceleração cardíaca e tremores. Pode provocar atenção exagerada a tudo que ocorre ao redor. É uma reação obtida a partir do contato com algum estímulo físico ou mental (interpretação, imaginação, crença) que gera uma resposta de alerta no organismo. Esta reação inicial dispara uma resposta fisiológica no organismo que libera hormônios do estresse  preparando o indivíduo para lutar ou fugir. Pode gerar tremores pelo corpo, suores, taquicardia, angústia e em algumas situações pode levar a pessoa a desmaiar.


Apesar da escuridão daquela madrugada eu conseguia ver a floresta perfeitamente. Eu via nitidamente cada galho, cada folha e todos os buracos causados pela chuva na estrada de terra. Enquanto eu andava em direção à parte mais densa eu comecei a pensar que estava sonhando e que a qualquer momento iria acordar na minha cama, no meu quarto, na minha casa sã e salva. Acontece que eu não queria estar salva, eu não queria acordar, eu não queria estar segura. Eu sentia tudo menos medo. Era tão lindo a noite quanto de dia. Havia algo familiar ali.. algo que me lembrava a infância talvez, que me sentia em paz. Era completamente calmo e silencioso.

_Vamos embora Jane, estou começando a ficar assustado!
Voltei correndo, a porta estava aberta, entrei e sentei no banco do passageiro do meu próprio carro e depois de um longo suspiro finalmente olhei para o banco do motorista e meu coração disparou. Senti tremores pelo corpo inteiro, taquicardia , angústia e imediatamente parei de respirar pela segunda vez.