sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Segunda

 - O que você faria se tivesse uma segunda oportunidade de voltar no passado e mudar uma decisão? Se você pudesse mudar aquela decisão da qual você mais se arrepende?
 -  Com certeza eu aceitaria  voltar lá e faria tudo diferente. Eu escolheria a situação que mais me arrependi e faria o contrário do que fiz na época.
 
Resposta errada.
 
Quando eu abri a porta do carro havia uma caixa no banco do passageiro. Era uma caixa branca e simples em formato de retângulo. Não havia nenhum desenho ou logotipo para que eu soubesse o que era ou o que havia ali. Olhei a caixa esperando que Doug a tirasse para que eu pudesse me sentar. Eu não estava muito animada com nossos encontros. Doug parecia o tempo todo preso em uma fantasia inexistente de contos de fadas. Eu deveria sonhar com contos de fadas. Eu sou a mulher nesta história. Mas contos de fadas são românticos, e eu não conhecia muito bem o significado desta palavra. Bom, pelo menos não naquele ano.
 - O que é isso? -Perguntei curiosa.
 -  Passei na padaria no caminho para sua casa e comprei seus doces favoritos. Achei que gostaria, você adora doces.  - Doug respondeu sorridente.
Quando abri a caixa encontrei 4 tipos de doces. Eu gostava de um deles e não era meu favorito.
Eu gostaria de saber quem impôs essa idéia de que para agradar uma mulher é preciso dar flores, pagar um jantar caro, dar perfumes ou jóias. Concordo com as Jóias, mas sou alérgica a perfume, flores e vários tipos de tempero. O que aconteceu com entender e conhecer uma pessoa antes de tentar agradá-la com coisas supérfluas e clichês impostas pela sociedade? 4 anos depois Bill me conquistou com um passeio no meio da floresta às 3 horas da manhã para observar as árvores e as estrelas.
Quando terminei meu relacionamento com Doug,  tinha certeza de que não podia namorar um homem que não estava interessado em quem eu era de verdade, mas sim em moldar uma garota qualquer para ser sua namorada de contos de fadas.
Mas como toda mulher se arrepende um dia de ter dispensado alguém que poderia ter se tornado seu marido, tomei a decisão de voltar ao passado e mudar minha escolha.
Quero deixar bem claro aqui que quando tomamos uma decisão, ela está sempre certa. Fui descobrir isso 6 anos depois, quando trouxe Doug novamente para minha vida e tive a certeza de que jamais poderia ter um relacionamento com ele.
 - Esse restaurante é uma delícia. O sushi está maravilhoso, poderia passar a semana inteira comendo só isso. - Disse eu em voz alta
 - Só isso? Você está muito magra. Precisa comer arroz, feijão, carne. Precisa ganhar uns quilinhos
 - Doug, você sabe que eu não como carne há 11 anos. Estou bem assim.
 - AAAHH mocinha, nem pensar. Agora que você está comigo acabou essa frescura. Vai voltar a comer carne sim senhora, vai comer tudo e engordar pelo menos uns 7 kilos. Tá precisando. Essa história de você quase ter morrido por contrair uma bactéria no mar vai acabar virando passado, para criar resistência você vai ter que pegar mais umas duas vezes. Próximo passeio: praia!
 
Nunca mais me arrependerei na vida e nunca mais desenterrarei o passado.



terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Frágil

Quando um osso se quebra, os vasos sanguíneos em seu interior se rompem, causando sangramento e a formação de um coágulo. O local inflama, mas, em 24 horas, as extremidades dos vasos rompidos são vedadas, estancando quase por completo a hemorragia. A região da fratura fica cheia de pedacinhos do osso quebrado e tecidos mortos, que são removidos pela ação de células chamadas osteoclastos. Elas fagocitam ("comem" e "digerem") esses fragmentos. Desde as primeiras horas após a contusão, também entram em ação os angioblastos, células responsáveis pela formação dos vasos sanguíneos. Elas darão origem a novos vasos dentro do osso e irão reparar outros que se romperam com a fratura. Ao mesmo tempo, a medula óssea começa a se regenerar. 
 
Não imagino um funcionamento de uma máquina mais inteligente que a capacidade do corpo humano de se recuperar.
 
 
 
 
Bill sentou-se ao meu lado na mesa e começou a tirar os rótulos das garrafas de cerveja. Tentei me distrair com a música mas fiquei imaginando o que aconteceria se não atendesse mais suas ligações. Aquele silêncio me perturbava um pouco, Bill não é silencioso e nunca preciso tentar adivinhar seus pensamentos, ele sempre os revela sem rodeios. Tentei dessa vez mas era impossível.
Eu não poderia jamais imaginar que ele se desencantasse ou se perdesse por outros lugares. Seria egoísmo demais querer mantê-lo por perto o tempo todo. Além disso era difícil amar alguém e saber que essa pessoa não te ama com a mesma intensidade, mas talvez nosso relacionamento não fosse adorável só para mim. Talvez aquilo bastasse, cobrisse um buraco negro em nossas vidas. Eu sempre quis mais do que Bill me dava e agora eu tinha medo de perder o pouco que me restava.
Sempre achei o Ser Humano extremamente frágil. Nossos ossos, nossa pele, são facilmente quebráveis ou penetráveis por objetos cortantes, afiados ou armas de fogo. Mas na verdade nossa maior fragilidade está nos sentimentos e não no físico.
Na verdade, não somos assim tão frágeis, nosso corpo se recupera, nossa pele se regenera, nossos ossos se grudam novamente, o corpo humano é uma máquina perfeita e inteligente. Funciona quase que como uma mágica. Mas naquele momento tive medo de esmagar meu coração mais do que levar um tiro ou bater o carro.







 

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Fuga


O Dragão de Komodo é um dos animais mais temidos e perigosos. Trata-se da maior espécie de lagarto conhecida.  No interior de sua mandíbula habitam bactérias letais. Para se alimentar, o Dragão de Komodo ataca sorrateiramente com uma mordida e espera sua vítima morrer pela infecção produzida pelas bactérias. O lagarto segue a vítima durante algum tempo até que a infecção se encarrega de prostrá-la, quando é então calmamente devorada.

Eu me sentia exatamente assim. Como se uma ferida horrível estivesse aberta em meu corpo e eu estivesse apenas aguardando que a infeccção se espalhasse até a minha morte. Sem poder fazer nada para impedir, pois não havia remédios o suficiente ao meu alcance. A ferida havia sido causada por algo bem diferente de uma mordida do lagarto gigante.

As folhas estavam cada vez maiores. A subida estava bem íngreme agora. Apesar de ter ficado um pouco distante dos outros turistas, eu conseguia ouvi-los conversando perfeitamente. Eles falavam em inglês, o que tornava a caminhada mais fácil, pois o assunto me mantinha entretida. O barulho do mar estava cada vez mais distante me dando a impressão de que estávamos cada vez mais perto do centro da ilha. Escutei o grupo rindo alto e fiquei aliviada por perceber que não havia nada assustador onde eles estavam, e que o caminho era mais tranquilo do que imaginei. Cohen caminhava na minha frente afastando as folhas enormes do meu caminho com um cavalheirismo impressionante. Quando ele soube o que Bill havia dito me olhou com um brilho nos olhos que eu nunca havia visto em ninguém. Ele não ficou com pena e muito menos tentou me consolar, ele apenas me perguntou o que eu queria fazer agora e que se não o convidasse ele ficaria triste. Senti como se ele havia esperado aquele momento por um bom tempo. Enquanto eu me esforçava para acompanhar o ritmo de Cohen não conseguia afastar o pensamento de Bill e o motivo pelo qual ele não se interessava por mim como Cohen e Eric. O que eu não mostrei a ele que os outros viam o tempo todo? O que ele não conseguia ver em mim que era tão claro e transparente para os outros? Será que era esse o motivo da minha atração? Ou eu estava apenas sendo pretensiosa de achar que alguém que valorizava tanto a beleza acima de todas as outras características de uma mulher sairia tanto tempo comigo? Senti uma gota de suor brotando atrás de meu joelho e escorrendo pela minha perna e olhei para baixo. Minha micro regata estava banhada em suor e meu menor ainda short estava molhado como se eu tivesse entrado no mar de roupa. Estava tanto calor que quando olhei para as costas de Cohen percebi que ele ia sofrer para tomar banho com aquele bronzeado.

_ Quer protetor solar? Você decidiu não trazer nada, mas a minha mochila tem água, protetor e uma toalha. Posso praticamente salvar sua vida. – soltei uma risada baixa e Cohen olhou para mim com um olhar irônico.

_ Jane, não exagere, você é a fraquinha aqui, eu aguento qualquer parada.

_A gente conversa quando a água do chuveiro atingir suas costas.

Cohen é um dos homens mais atraentes que já conheci, porém ele não transmitia nenhuma emoção. Eu não sabia quando ele estava triste ou feliz. Quando algo na sua vida estava certo ou errado. Eu sabia de seu interesse por mim, pois ele havia voado do meu lado mais de 25 horas para chegar onde estávamos. Quando conhecemos alguém por muito tempo é fácil diferenciar os sentimentos de tristeza ou alegria, interesse ou falta de interesse, tédio ou cansaço, qualquer coisa. Sempre fui muito observadora nesse ponto. Mas em se tratando de Cohen isso era quase impossível. Era. Até aquele momento.

_ Jane, não consigo mais escutar os turistas conversando. Será que eles entraram em alguma trilha paralela? Estamos caminhando em uma reta há mais de 40 minutos e faz 20 minutos que parei de ouvi-los.

_ Não faz isso comigo. Para de brincar com coisa séria, não tem graça. Estamos quase no centro da ilha não escuto mais as ondas e aqui não pega celular. Não podemos estar perdidos.

_Não tenho medo de estar perdido, Jane, é fácil voltar pelo mesmo caminho que viemos se por acaso nos separarmos do grupo. Não é isso. Só estou curioso, não consigo ver outra trilha em lugar nenhum, eles não teriam entrado no meio da mata selvagem.

Quando escutei o primeiro grito tive um impulso incontrolável de correr na direção contrária. Senti Cohen me segurando forte e me impedindo de sair de onde estava e de repente senti sua mão tampando minha boca pra eu não gritar e fazendo sinal para manter silêncio. Meu corpo inteiro tremia e pela primeira vez em 14 dias senti frio. Pensei que poderia ser um animal, mas não existem animais capazes de silenciar um grupo enorme de japoneses em uma ilha próxima a Mauna kea, era mais fácil um vulcão ter entrado em erupção.

 - Se eu quisesse morrer teria ido para a ilha de Komodo na Indonésia e não para o Havaí, por favor, me deixe correr, Cohen.

Quando olhei para os olhos dele senti que correr não adiantaria nada.