domingo, 17 de novembro de 2013

Passado

Dizem que para esquecer uma pessoa é preciso escrever sobre ela. Mesmo que eu escreva livros a vida inteira, ainda assim nunca me esquecerei de Bill.

_ Jane! Anda logo! Não quero sair muito tarde e pegar fila na porta. O show começa exatamente a meia-noite e ainda temos uma hora de estrada.
Enquanto Joanna gritava na cozinha eu terminava de passar rímel na frente do espelho exageradamente grande do meu banheiro. O espelho ocupava a parede inteira acima da pia e eu me perguntei se algum dia eu comprasse um apartamento, teria dinheiro para instalar um espelho como aquele. Provavelmente não.
_ Me diga por qual motivo exatamente temos que chegar tão cedo neste lugar Joanna.  - perguntei sabendo que ela me daria uma explicação escalafobética e eu ganharia tempo de escolher os sapatos enquanto a escutava.
Quando chegamos na famosa Casa de Show para assistir uma banda de música sertaneja, me arrependi imediatamente. O único motivo que me impedia de voltar para o carro e dirigir para bem longe eram as longas horas de sermão de Joanna.
As paredes eram todas de madeira imitando um estábulo antigo. Cabeças de gado empalhadas enormes surgiam das paredes perto do palco, como em uma casa de fazenda. As pessoas estavam vestidas bem parecidas umas com as outras, e acabei trombando em vários chapéus de "cowboy", um deles deixou meu olho bem vermelho, e pensei " Ah que ótimo, além de parecer entediada agora as pessoas vão achar que sou maconheira."
Joanna desapareceu em menos de 35 minutos, como sempre, e resolvi andar até o bar para conseguir uma água trombando em várias pessoas, cabelos sendo jogados na minha cara, copos de bebida sendo derramados nos meus sapatos além de cotoveladas na minha orelha. Quando o garçom me convenceu de tomar um suco ao invés de água escutei uma voz feminina me chamando de "loira aguada"
_Você me conhece? - perguntei me preparando para escapar de um soco.
_Não se lembra de mim? Fomos amigas quando você trabalhava no Jardim Rosas.
Quando escutei a palavra Jardim Rosas, imediatamente me coloquei em posição de defesa. Em uma fração de segundos eu consegui vasculhar com dois olhares os quatro cantos da Casa de Show e encontrei uma saída na lateral do palco. Eu não sei como consigo encontrar saídas tão rapidamente e tão convenientemente quando estou correndo algum tipo de perigo por menor que seja, mas não quero pensar muito nisso, somente quero agradecer meus genes por me ajudarem tão rápido.
_Calma Jane, ficou tão pálida de repente. Pode aproveitar o show, estou indo embora mesmo. Não se preocupe. Já passou, não guardo rancor de nada.
Me virei de volta para o balcão, peguei meu suco e comecei a andar na direção da saída jogando meus cabelos loiros e bagunçados nas caras das pessoas que me atrapalhavam, derrubando meu suco nos pés de alguns rapazes inconvenientes no meu caminho e dando cotoveladas nas orelhas de algumas adolescentes escandalosas. Nunca consegui chegar tão rápido em algum lugar. Acho que aprendi como sobreviver nesse tipo de selva. Após alguns goles de suco comecei a me sentir estranhamente cansada, como se tivesse carregado sacos de areia durante 10 horas seguidas. Meu corpo começou a ficar dormente e minhas pernas cambalearam até não conseguir mais me mover. Senti um par de braços enormes segurando minhas costas e meus joelhos e de repente eu estava na posição horizontal, mas não era minha cama, não estava deitada em terra firme, parecia que estava flutuando mas não pela minha própria vontade.

Tentei abri os olhos mas minha cabeça latejou tão intensamente que desisti e resolvi pensar em onde estava. Comecei a tatear em volta e senti um tecido macio parecido com veludo. Não era uma cama, pois não senti os lencóis, apenas o veludo. Ainda estava completamente vestida, mas sabia que não estava em casa.
-Jane?
_ Eric?
Era Eric?? Como ele havia me encontrado? Como eu tinha ido parar no sofá de veludo de Eric?  A última coisa de que me lembro era estar quase desmaiando em uma Casa de Show após ter encontrado Anna Clara.
_ Você desmaiou em um show de música sertaneja e se eu não tivesse te socorrido acho que Anna Clara te roubaria até as calcinhas por vingança. Acho que ela drogou você.
Eu não posso agradecer Eric pois ele me salvara tantas vezes que ficaria a vida inteira dizendo "Obrigada".
Quando consegui me levantar do sofá senti uma brisa estranha, o vento era diferente, quente e úmido com cheiro diferente. Enquanto ele preparava o café eu andei pelo apartamento até uma varanda e quando a abri vi o oceano azul imenso bem diante dos meus olhos. A casa estava no alto de uma colina e abaixo das árvores eu conseguia ver as pedras que íamos pescar quando estávamos juntos. Não consegui avistar areia, apenas as grandes pedras que Eric gostava de passar as madrugadas de verão pescando, pensando e esperando o sol nascer para me levar para o café da manhã. Apesar da familiaridade da situação eu me senti uma estranha naquela casa.
_O que estou fazendo na Praia da Baleia? Isso é sequestro.
_Quero te mostrar uma coisa.
_Já conheço o que os plânctons fazem com a água, você já me mostrou, lembra?
_ Não é isso, Jane. Ainda confia em mim?
Segui o Dragão mais uma vez pela praia e pela primeira vez na vida eu vi algo que mudaria para sempre minha visão do planeta. Somos seres imensamente ignorantes e talvez inocentes e não sabemos da missa a metade.