quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Cristalina


PERIGO: situação ou condição de risco com probabilidade de causar lesão física ou dano à sáude das pessoas por ausência de medidas de controle.
Pois bem segundo essa definição fica claro que todo perigo é um risco não controlado.

 

 

As árvores estavam cada vez mais altas e a floresta parecia cada vez mais densa. Eu já conseguia escutar o som de água corrente mas ainda não conseguia distinguir se o som vinha do final da trilha a minha frente ou se corria paralelamente ao nosso caminho. Após duas horas de caminhada eu já não seguia mais Justin. Tinha ficado para trás, mas eu sabia que estava no caminho certo pois a trilha estava intacta mesmo depois de dois anos sem  receber campistas.

As montanhas naquele lado tinham ficado perigosas após um incêndio monstruoso ter devastado a parte mais selvagem das florestas ao redor de nossa cidade. Os animais correram para o lado dos campings onde havia o rio. Ninguém mais explorava aquela área, mas eu tinha visto o lugar mais lindo da minha vida ali e queria voltar. Justin não era um dos homens mais cautelosos que eu conhecia, quando decidi subir a trilha ele foi o primeiro e único a se oferecer. Eu não sabia que ele faria isso mesmo estando mais entediado do que eu. Aceitei pois apesar de colocar nossas vidas em risco, sinto que se meu coração não está acelerado não estou viva, portanto acabo caindo no tédio eterno de sempre.

Quando avistei a água verde e cristalina após afastar as últimas folhas do meu caminho, lembrei imediatamente da paisagem incrível que vi naquele lugar e o motivo pelo qual eu queria voltar. A névoa da manhã cobria a água como um cobertor e os raios de sol que entravam pelo meio das montanhas faziam as partes descobertas da  água brilharem em uma cor que eu nem sabia que existia.

Tirei meu tênis e apesar do frio e temperatura extremamente baixa da água entrei na parte rasa. Quando meus pés tocaram a água fria e verde  meu corpo inteiro congelou, fechei meus olhos esperando me acostumar e quando abri vi Justin acenando e gritando meu nome do outro lado do rio. O que ele estava fazendo tão longe? O rio é enorme não consigo atravessar, além da forte correnteza, é fundo demais e frio demais.  Pelo barulho alto da água correndo e a distância de Justin eu não conseguia ouvi-lo perfeitamente mas ele acenava desesperadamente e abria a boca como um grito que eu não conseguia escutar e muito menos ler seus lábios. Quando ele apontou na minha direção e imitou um animal não precisei olhar para trás, eu sabia o que estava chegando perto. Por um segundo não movi um músculo e um fio de cabelo. Eu nunca me considerei uma donzela em apuros precisando ser salva a todo momento mas estava sempre correndo perigo. Olhei para o outro lado do rio desejando ser uma personagem no filme Jumper. Quando eu conheci Justin,  estacionava o carro numa vaga impossível e ele me olhou da calçada como se estivesse vendo a pior motorista do mundo. Agora ele me olhava como se estivesse vendo a mulher mais azarada do mundo.

A onça andava calmamente na minha direção e não parecia estar caçando, só parecia curiosa. Olhei para o rio e ele parecia extremamente convidativo agora. Imaginei uma piscina de água quente e tirei minha mochila do ombro bem devagar. Nesse momento a onça parou e me olhou, empinou o focinho como se tentasse sentir meu cheiro e fungou.

“Minha hora chegou”  - meu coração acelerou diferente e me senti mais viva do que nunca, talvez por estar tão perto da morte, lamentei nunca ter beijado Justin , lamentei ter uma personalidade tão perdida e procurar por situações exageradas e prometi  para a vida que se ela me salvasse eu nunca mais sentiria tédio novamente.

Foi então que escutei o tiro. O homem de mais de 2 metros de altura, segurando o maior rifle de caça que já vi,  havia atirado na onça. Ele tinha a feição de um psicopata e usava botas muito velhas e sujas. Pensei que estivesse morta e olhei para o outro lado do rio. Justin não estava mais lá.

_ Considere isso um aviso. Agora saia dessas montanhas e não volte mais. – a voz dele era baixa e aguda. Eu soube que ainda estava viva e que aquilo era realidade quando Justin me abraçou e perguntou se eu estava bem.

 

Nunca beijei alguém com tanta intensidade em toda minha vida.

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