terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Fuga


O Dragão de Komodo é um dos animais mais temidos e perigosos. Trata-se da maior espécie de lagarto conhecida.  No interior de sua mandíbula habitam bactérias letais. Para se alimentar, o Dragão de Komodo ataca sorrateiramente com uma mordida e espera sua vítima morrer pela infecção produzida pelas bactérias. O lagarto segue a vítima durante algum tempo até que a infecção se encarrega de prostrá-la, quando é então calmamente devorada.

Eu me sentia exatamente assim. Como se uma ferida horrível estivesse aberta em meu corpo e eu estivesse apenas aguardando que a infeccção se espalhasse até a minha morte. Sem poder fazer nada para impedir, pois não havia remédios o suficiente ao meu alcance. A ferida havia sido causada por algo bem diferente de uma mordida do lagarto gigante.

As folhas estavam cada vez maiores. A subida estava bem íngreme agora. Apesar de ter ficado um pouco distante dos outros turistas, eu conseguia ouvi-los conversando perfeitamente. Eles falavam em inglês, o que tornava a caminhada mais fácil, pois o assunto me mantinha entretida. O barulho do mar estava cada vez mais distante me dando a impressão de que estávamos cada vez mais perto do centro da ilha. Escutei o grupo rindo alto e fiquei aliviada por perceber que não havia nada assustador onde eles estavam, e que o caminho era mais tranquilo do que imaginei. Cohen caminhava na minha frente afastando as folhas enormes do meu caminho com um cavalheirismo impressionante. Quando ele soube o que Bill havia dito me olhou com um brilho nos olhos que eu nunca havia visto em ninguém. Ele não ficou com pena e muito menos tentou me consolar, ele apenas me perguntou o que eu queria fazer agora e que se não o convidasse ele ficaria triste. Senti como se ele havia esperado aquele momento por um bom tempo. Enquanto eu me esforçava para acompanhar o ritmo de Cohen não conseguia afastar o pensamento de Bill e o motivo pelo qual ele não se interessava por mim como Cohen e Eric. O que eu não mostrei a ele que os outros viam o tempo todo? O que ele não conseguia ver em mim que era tão claro e transparente para os outros? Será que era esse o motivo da minha atração? Ou eu estava apenas sendo pretensiosa de achar que alguém que valorizava tanto a beleza acima de todas as outras características de uma mulher sairia tanto tempo comigo? Senti uma gota de suor brotando atrás de meu joelho e escorrendo pela minha perna e olhei para baixo. Minha micro regata estava banhada em suor e meu menor ainda short estava molhado como se eu tivesse entrado no mar de roupa. Estava tanto calor que quando olhei para as costas de Cohen percebi que ele ia sofrer para tomar banho com aquele bronzeado.

_ Quer protetor solar? Você decidiu não trazer nada, mas a minha mochila tem água, protetor e uma toalha. Posso praticamente salvar sua vida. – soltei uma risada baixa e Cohen olhou para mim com um olhar irônico.

_ Jane, não exagere, você é a fraquinha aqui, eu aguento qualquer parada.

_A gente conversa quando a água do chuveiro atingir suas costas.

Cohen é um dos homens mais atraentes que já conheci, porém ele não transmitia nenhuma emoção. Eu não sabia quando ele estava triste ou feliz. Quando algo na sua vida estava certo ou errado. Eu sabia de seu interesse por mim, pois ele havia voado do meu lado mais de 25 horas para chegar onde estávamos. Quando conhecemos alguém por muito tempo é fácil diferenciar os sentimentos de tristeza ou alegria, interesse ou falta de interesse, tédio ou cansaço, qualquer coisa. Sempre fui muito observadora nesse ponto. Mas em se tratando de Cohen isso era quase impossível. Era. Até aquele momento.

_ Jane, não consigo mais escutar os turistas conversando. Será que eles entraram em alguma trilha paralela? Estamos caminhando em uma reta há mais de 40 minutos e faz 20 minutos que parei de ouvi-los.

_ Não faz isso comigo. Para de brincar com coisa séria, não tem graça. Estamos quase no centro da ilha não escuto mais as ondas e aqui não pega celular. Não podemos estar perdidos.

_Não tenho medo de estar perdido, Jane, é fácil voltar pelo mesmo caminho que viemos se por acaso nos separarmos do grupo. Não é isso. Só estou curioso, não consigo ver outra trilha em lugar nenhum, eles não teriam entrado no meio da mata selvagem.

Quando escutei o primeiro grito tive um impulso incontrolável de correr na direção contrária. Senti Cohen me segurando forte e me impedindo de sair de onde estava e de repente senti sua mão tampando minha boca pra eu não gritar e fazendo sinal para manter silêncio. Meu corpo inteiro tremia e pela primeira vez em 14 dias senti frio. Pensei que poderia ser um animal, mas não existem animais capazes de silenciar um grupo enorme de japoneses em uma ilha próxima a Mauna kea, era mais fácil um vulcão ter entrado em erupção.

 - Se eu quisesse morrer teria ido para a ilha de Komodo na Indonésia e não para o Havaí, por favor, me deixe correr, Cohen.

Quando olhei para os olhos dele senti que correr não adiantaria nada.