segunda-feira, 6 de julho de 2015

Sem Coração




Todas as caixas estavam vazias e empilhadas na área de fora da casa.  Seriam recolhidas no dia seguinte às oito da manhã e então tudo estaria arrumado e perfeito.  Olhei em volta e meu sorriso bobo inundou a cozinha. A geladeira estava lotada, todos os móveis eram lindos, estava perto da natureza e podia criar os animais perto de seu habitat natural. Terminei de alimentar os cavalos e tranquei as portas. O cansaço me ajudou a dormir um sono profundo por 9 horas seguidas. Bom, pelo menos eu achei que tinha dormido durante 9 horas.

Acordei  sentindo algo úmido e áspero passando pelo meu rosto em movimentos contínuos e rápidos. Abri os olhos e vi bem de perto os dentes do meu cachorro mais novo, que  estavam prestes a morder meu nariz. Virei o rosto e gritei um não abafado que quase não saiu e senti  uma dor horrível no peito. Não conseguia me mover nem levantar da minha cama e olhei meu cachorro mais uma vez. Agora com ele bem perto notei que seus pelos estavam diferente, um pouco desgrenhados e bem perto de seu nariz havia um verruga comum nesta raça quando ficam mais velhos.  Tentei levantar novamente e não consegui. Olhei para meu peito dolorido e no lugar de meu coração havia um buraco e um pouco de sangue. Do susto consegui juntar forças, pulei da cama desesperada e consegui andar até o banheiro. Olhei no espelho e para meu terror lá estava: meu peito completamente vazio.
Abri as gavetas do banheiro desesperada ainda confusa sobre o que estava procurando e encontrei agulhas e linhas. Rapidamente costurei meu peito para estancar o pouco de sangue, fiz um curativo e vesti uma roupa. Quando saí do banheiro o pânico piorou. Algo estava errado.  Quando me virei percebi que além de terem roubado meu coração eu estava cinco anos mais velha.  Minha pele estava pálida, meus olhos inchados e os contornos em volta deles estavam mais roxos que uma beterraba, e meu corpo curvado e muito magro me olhava no espelho. Como aquilo poderia estar acontecendo? Saí correndo do banheiro a procurar meus cachorros mais velhos e eles haviam sumido. Encontrei três túmulos pequenos  no jardim  e dois  grandes na colina mais acima. Cinco animais já haviam partido. Não tive vontade de chorar, me concentrei em afastar o pânico e a confusão e então entendi que sem meu coração, não poderia viver.
Alimentei os animais, arrumei a casa, fiz comida, precisava de alimentos para ter forças e coloquei uma troca de roupa e pães em uma mala pequena.  Despedi-me de meu cachorro com um beijo em sua cabecinha pequena e parti para recuperar meu coração.
A entrada da cidade havia sido reformada pelo novo prefeito e a rua principal parecia enfeitada para uma festa. Não sabia por onde começar nem para onde deveria ir.  Pensei que se houvesse uma festa, toda a cidade deveria se reunir ali então seria mais fácil encontrar quem roubou meu coração. Subi pela arquibancada decorada e esperei. As pessoas começaram a chegar e a se sentar e conversar e as ruas começaram a ficar barulhentas demais. Todas as pessoas pareciam tão envelhecidas e não havia nenhuma criança. Será que todas as crianças já haviam crescido? Mas e os adultos? Não tiveram mais filhos?  Aquilo era total perda de tempo.
_ Oi Jane.  – escutei uma voz. Olhei para meu lado e vi um Senhor que imaginei ter um pouco mais de 85 anos e estava segurando uma jaqueta já bem gasta de couro amarela.  Ele era bem peculiar.
_ O Senhor me conhece?
_ Eu forneço  a ração dos seus cachorros. 
_Ah claro! |Como vai, Senhor Hamilton? Desculpe estou muito distraída hoje. Alguém roubou meu coração. Não sei  como recuperá-lo.
_ Ah sim, isso é muito grave. Você não pode viver sem um coração. Restam-lhe poucos dias de vida. Mas tente começar pelos lugares por onde você passou durante os últimos anos.
Era uma ideia genial. Eu acordara na fazenda então lá não estava.  Na pequena loja de rações também não, pois o proprietário estava na arquibancada comigo. Pensei na grande confeitaria. Corri como louca pela cidade e quando cheguei lá,  a filha mais velha de Dona Lurdes me olhava assustada.  Olhei em volta e todas as pessoas continuavam suas rotinas normalmente como se não estivessem me vendo.  Acenei timidamente para a menina Clara e pedi um croissant com manteiga.  Clara sentou-se na minha frente e olhou para meu decote. A costura estava aparente e rapidamente fechei o botão e ela perguntou se eu tinha procurado na antiga gravadora de música. Ela disse para prestar atenção se alguém tinha algum traço parecido com o meu e a saúde e cor que inundavam meu corpo cinco anos atrás. Eu perguntei como ela sabia que eu estava procurando meu coração. E ela só respondeu:
_ Porque eu nunca vi alguém com o peito costurado e os olhos vermelhos e frios como os seus.
Os meus olhos estavam vermelhos? Pedi licença a Clara e fui calmamente ao banheiro. Quando me olhei no espelho percebi que meus olhos estavam cor de sangue. Os castanhos haviam sumido completamente e minha pele estava mais enrugada.  Peguei minha mala, paguei o croissant e andei em direção à única gravadora que conhecia.  Quando vi a fachada, o vento balançou meu vestido e meu cabelo. Uivou muito alto e me senti em um cenário dramático de filme antigo. Minhas lembranças me abraçaram forte como se tivessem me impulsionando a entrar e pareciam estar vivas ao meu redor. A rua de repente se esvaziou abrindo caminho até a porta rotatória e a recepcionista levou um susto quando me viu.
_ Jane, quanto tempo! Você está bem? Quer um pouco de água?
_ Preciso subir ao segundo andar. _ Eu sabia exatamente onde estava indo.
Quando saltei do elevador ele estava abrindo a porta de vidro. Bill estava radiante. Sua pele estava branca como sempre, mas suas maçãs do rosto estavam coradas demonstrando felicidade e saúde, seu corpo estava forte e esbelto e seus passos saltitantes e contagiantes pareciam iluminar o ambiente.  Ele me olhou e sorriu normalmente.  Andei em sua direção, abri sua mochila, peguei meu coração ainda pulsante vermelho e lindo e o recoloquei em meu peito. Imediatamente minha pele voltou ao normal, meu corpo rejuvenesceu, eu senti todos os meus ossos fortes e meu sangue correndo quente pelas minhas veias.  Vi meus olhos castanhos pelo reflexo na porta de vidro que Bill acabara de abrir e senti uma raiva insana.
_ Como você teve coragem de roubar meu coração? Deixou-me sozinha com o peito aberto e sangrando para morrer? _ eu gritava indignada. Bill me olhou calmamente e respondeu:
_Mas Jane,  ... foi você que me deu.


sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Segunda

 - O que você faria se tivesse uma segunda oportunidade de voltar no passado e mudar uma decisão? Se você pudesse mudar aquela decisão da qual você mais se arrepende?
 -  Com certeza eu aceitaria  voltar lá e faria tudo diferente. Eu escolheria a situação que mais me arrependi e faria o contrário do que fiz na época.
 
Resposta errada.
 
Quando eu abri a porta do carro havia uma caixa no banco do passageiro. Era uma caixa branca e simples em formato de retângulo. Não havia nenhum desenho ou logotipo para que eu soubesse o que era ou o que havia ali. Olhei a caixa esperando que Doug a tirasse para que eu pudesse me sentar. Eu não estava muito animada com nossos encontros. Doug parecia o tempo todo preso em uma fantasia inexistente de contos de fadas. Eu deveria sonhar com contos de fadas. Eu sou a mulher nesta história. Mas contos de fadas são românticos, e eu não conhecia muito bem o significado desta palavra. Bom, pelo menos não naquele ano.
 - O que é isso? -Perguntei curiosa.
 -  Passei na padaria no caminho para sua casa e comprei seus doces favoritos. Achei que gostaria, você adora doces.  - Doug respondeu sorridente.
Quando abri a caixa encontrei 4 tipos de doces. Eu gostava de um deles e não era meu favorito.
Eu gostaria de saber quem impôs essa idéia de que para agradar uma mulher é preciso dar flores, pagar um jantar caro, dar perfumes ou jóias. Concordo com as Jóias, mas sou alérgica a perfume, flores e vários tipos de tempero. O que aconteceu com entender e conhecer uma pessoa antes de tentar agradá-la com coisas supérfluas e clichês impostas pela sociedade? 4 anos depois Bill me conquistou com um passeio no meio da floresta às 3 horas da manhã para observar as árvores e as estrelas.
Quando terminei meu relacionamento com Doug,  tinha certeza de que não podia namorar um homem que não estava interessado em quem eu era de verdade, mas sim em moldar uma garota qualquer para ser sua namorada de contos de fadas.
Mas como toda mulher se arrepende um dia de ter dispensado alguém que poderia ter se tornado seu marido, tomei a decisão de voltar ao passado e mudar minha escolha.
Quero deixar bem claro aqui que quando tomamos uma decisão, ela está sempre certa. Fui descobrir isso 6 anos depois, quando trouxe Doug novamente para minha vida e tive a certeza de que jamais poderia ter um relacionamento com ele.
 - Esse restaurante é uma delícia. O sushi está maravilhoso, poderia passar a semana inteira comendo só isso. - Disse eu em voz alta
 - Só isso? Você está muito magra. Precisa comer arroz, feijão, carne. Precisa ganhar uns quilinhos
 - Doug, você sabe que eu não como carne há 11 anos. Estou bem assim.
 - AAAHH mocinha, nem pensar. Agora que você está comigo acabou essa frescura. Vai voltar a comer carne sim senhora, vai comer tudo e engordar pelo menos uns 7 kilos. Tá precisando. Essa história de você quase ter morrido por contrair uma bactéria no mar vai acabar virando passado, para criar resistência você vai ter que pegar mais umas duas vezes. Próximo passeio: praia!
 
Nunca mais me arrependerei na vida e nunca mais desenterrarei o passado.



terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Frágil

Quando um osso se quebra, os vasos sanguíneos em seu interior se rompem, causando sangramento e a formação de um coágulo. O local inflama, mas, em 24 horas, as extremidades dos vasos rompidos são vedadas, estancando quase por completo a hemorragia. A região da fratura fica cheia de pedacinhos do osso quebrado e tecidos mortos, que são removidos pela ação de células chamadas osteoclastos. Elas fagocitam ("comem" e "digerem") esses fragmentos. Desde as primeiras horas após a contusão, também entram em ação os angioblastos, células responsáveis pela formação dos vasos sanguíneos. Elas darão origem a novos vasos dentro do osso e irão reparar outros que se romperam com a fratura. Ao mesmo tempo, a medula óssea começa a se regenerar. 
 
Não imagino um funcionamento de uma máquina mais inteligente que a capacidade do corpo humano de se recuperar.
 
 
 
 
Bill sentou-se ao meu lado na mesa e começou a tirar os rótulos das garrafas de cerveja. Tentei me distrair com a música mas fiquei imaginando o que aconteceria se não atendesse mais suas ligações. Aquele silêncio me perturbava um pouco, Bill não é silencioso e nunca preciso tentar adivinhar seus pensamentos, ele sempre os revela sem rodeios. Tentei dessa vez mas era impossível.
Eu não poderia jamais imaginar que ele se desencantasse ou se perdesse por outros lugares. Seria egoísmo demais querer mantê-lo por perto o tempo todo. Além disso era difícil amar alguém e saber que essa pessoa não te ama com a mesma intensidade, mas talvez nosso relacionamento não fosse adorável só para mim. Talvez aquilo bastasse, cobrisse um buraco negro em nossas vidas. Eu sempre quis mais do que Bill me dava e agora eu tinha medo de perder o pouco que me restava.
Sempre achei o Ser Humano extremamente frágil. Nossos ossos, nossa pele, são facilmente quebráveis ou penetráveis por objetos cortantes, afiados ou armas de fogo. Mas na verdade nossa maior fragilidade está nos sentimentos e não no físico.
Na verdade, não somos assim tão frágeis, nosso corpo se recupera, nossa pele se regenera, nossos ossos se grudam novamente, o corpo humano é uma máquina perfeita e inteligente. Funciona quase que como uma mágica. Mas naquele momento tive medo de esmagar meu coração mais do que levar um tiro ou bater o carro.







 

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Fuga


O Dragão de Komodo é um dos animais mais temidos e perigosos. Trata-se da maior espécie de lagarto conhecida.  No interior de sua mandíbula habitam bactérias letais. Para se alimentar, o Dragão de Komodo ataca sorrateiramente com uma mordida e espera sua vítima morrer pela infecção produzida pelas bactérias. O lagarto segue a vítima durante algum tempo até que a infecção se encarrega de prostrá-la, quando é então calmamente devorada.

Eu me sentia exatamente assim. Como se uma ferida horrível estivesse aberta em meu corpo e eu estivesse apenas aguardando que a infeccção se espalhasse até a minha morte. Sem poder fazer nada para impedir, pois não havia remédios o suficiente ao meu alcance. A ferida havia sido causada por algo bem diferente de uma mordida do lagarto gigante.

As folhas estavam cada vez maiores. A subida estava bem íngreme agora. Apesar de ter ficado um pouco distante dos outros turistas, eu conseguia ouvi-los conversando perfeitamente. Eles falavam em inglês, o que tornava a caminhada mais fácil, pois o assunto me mantinha entretida. O barulho do mar estava cada vez mais distante me dando a impressão de que estávamos cada vez mais perto do centro da ilha. Escutei o grupo rindo alto e fiquei aliviada por perceber que não havia nada assustador onde eles estavam, e que o caminho era mais tranquilo do que imaginei. Cohen caminhava na minha frente afastando as folhas enormes do meu caminho com um cavalheirismo impressionante. Quando ele soube o que Bill havia dito me olhou com um brilho nos olhos que eu nunca havia visto em ninguém. Ele não ficou com pena e muito menos tentou me consolar, ele apenas me perguntou o que eu queria fazer agora e que se não o convidasse ele ficaria triste. Senti como se ele havia esperado aquele momento por um bom tempo. Enquanto eu me esforçava para acompanhar o ritmo de Cohen não conseguia afastar o pensamento de Bill e o motivo pelo qual ele não se interessava por mim como Cohen e Eric. O que eu não mostrei a ele que os outros viam o tempo todo? O que ele não conseguia ver em mim que era tão claro e transparente para os outros? Será que era esse o motivo da minha atração? Ou eu estava apenas sendo pretensiosa de achar que alguém que valorizava tanto a beleza acima de todas as outras características de uma mulher sairia tanto tempo comigo? Senti uma gota de suor brotando atrás de meu joelho e escorrendo pela minha perna e olhei para baixo. Minha micro regata estava banhada em suor e meu menor ainda short estava molhado como se eu tivesse entrado no mar de roupa. Estava tanto calor que quando olhei para as costas de Cohen percebi que ele ia sofrer para tomar banho com aquele bronzeado.

_ Quer protetor solar? Você decidiu não trazer nada, mas a minha mochila tem água, protetor e uma toalha. Posso praticamente salvar sua vida. – soltei uma risada baixa e Cohen olhou para mim com um olhar irônico.

_ Jane, não exagere, você é a fraquinha aqui, eu aguento qualquer parada.

_A gente conversa quando a água do chuveiro atingir suas costas.

Cohen é um dos homens mais atraentes que já conheci, porém ele não transmitia nenhuma emoção. Eu não sabia quando ele estava triste ou feliz. Quando algo na sua vida estava certo ou errado. Eu sabia de seu interesse por mim, pois ele havia voado do meu lado mais de 25 horas para chegar onde estávamos. Quando conhecemos alguém por muito tempo é fácil diferenciar os sentimentos de tristeza ou alegria, interesse ou falta de interesse, tédio ou cansaço, qualquer coisa. Sempre fui muito observadora nesse ponto. Mas em se tratando de Cohen isso era quase impossível. Era. Até aquele momento.

_ Jane, não consigo mais escutar os turistas conversando. Será que eles entraram em alguma trilha paralela? Estamos caminhando em uma reta há mais de 40 minutos e faz 20 minutos que parei de ouvi-los.

_ Não faz isso comigo. Para de brincar com coisa séria, não tem graça. Estamos quase no centro da ilha não escuto mais as ondas e aqui não pega celular. Não podemos estar perdidos.

_Não tenho medo de estar perdido, Jane, é fácil voltar pelo mesmo caminho que viemos se por acaso nos separarmos do grupo. Não é isso. Só estou curioso, não consigo ver outra trilha em lugar nenhum, eles não teriam entrado no meio da mata selvagem.

Quando escutei o primeiro grito tive um impulso incontrolável de correr na direção contrária. Senti Cohen me segurando forte e me impedindo de sair de onde estava e de repente senti sua mão tampando minha boca pra eu não gritar e fazendo sinal para manter silêncio. Meu corpo inteiro tremia e pela primeira vez em 14 dias senti frio. Pensei que poderia ser um animal, mas não existem animais capazes de silenciar um grupo enorme de japoneses em uma ilha próxima a Mauna kea, era mais fácil um vulcão ter entrado em erupção.

 - Se eu quisesse morrer teria ido para a ilha de Komodo na Indonésia e não para o Havaí, por favor, me deixe correr, Cohen.

Quando olhei para os olhos dele senti que correr não adiantaria nada.

 

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013


Carta para Bill

 

_ Eu não fui sincera com você.  _ confessei em um tom de voz impossível de ser ouvido, mas Bill escutou e respondeu.

_Eu sei.

_ Não pude correr o risco de vê-la com você. E se ela aparecesse? Moon quer você de volta e ela não parece uma garota que desiste tão fácil.

_Mas você parece. Jane, nunca a vi insistir, nunca a vi lutar por mim.

_ Não tenho forças para isso.

_ O que acontece?

Eu nunca disse nada, pois eu sabia que não faria diferença. As pessoas que precisam ser conquistadas nunca te proporcionam um relacionamento normal. Quando uma pessoa reage naturalmente a um convite para sair, ela está disponível em todos os sentidos. Quando você precisa insistir ou usar armas de conquistas, essa pessoa não está disponível e você precisa ganha-la de alguma maneira. Não é natural. Se você precisou ganha-la uma vez, precisará sempre.

_ Eu não quero tentar te conquistar, eu não quero lutar por você, isso não existe. Ou as pessoas se gostam naturalmente ou elas não se gostam, ninguém ganha ninguém. Se eu preciso lutar por você significa que você não gosta de mim naturalmente. E isso eu sei, mas não quero ter a certeza, porque se eu tiver a certeza, vou me partir em um milhão de pedaços e nunca mais vou conseguir juntar de volta, pois por mais que eu não diga o tempo todo, por mais que eu sempre vá embora correndo, nunca te ligue para dizer boa noite ou bom dia ou para saber o que você está fazendo, por mais que eu namore outros homens, beije outros homens ou me case com outro homem, a verdade é que eu tive os melhores momentos da minha vida do seu lado, e eu te amei, te amo e vou te amar para sempre.

 

 

 

domingo, 17 de novembro de 2013

Passado

Dizem que para esquecer uma pessoa é preciso escrever sobre ela. Mesmo que eu escreva livros a vida inteira, ainda assim nunca me esquecerei de Bill.

_ Jane! Anda logo! Não quero sair muito tarde e pegar fila na porta. O show começa exatamente a meia-noite e ainda temos uma hora de estrada.
Enquanto Joanna gritava na cozinha eu terminava de passar rímel na frente do espelho exageradamente grande do meu banheiro. O espelho ocupava a parede inteira acima da pia e eu me perguntei se algum dia eu comprasse um apartamento, teria dinheiro para instalar um espelho como aquele. Provavelmente não.
_ Me diga por qual motivo exatamente temos que chegar tão cedo neste lugar Joanna.  - perguntei sabendo que ela me daria uma explicação escalafobética e eu ganharia tempo de escolher os sapatos enquanto a escutava.
Quando chegamos na famosa Casa de Show para assistir uma banda de música sertaneja, me arrependi imediatamente. O único motivo que me impedia de voltar para o carro e dirigir para bem longe eram as longas horas de sermão de Joanna.
As paredes eram todas de madeira imitando um estábulo antigo. Cabeças de gado empalhadas enormes surgiam das paredes perto do palco, como em uma casa de fazenda. As pessoas estavam vestidas bem parecidas umas com as outras, e acabei trombando em vários chapéus de "cowboy", um deles deixou meu olho bem vermelho, e pensei " Ah que ótimo, além de parecer entediada agora as pessoas vão achar que sou maconheira."
Joanna desapareceu em menos de 35 minutos, como sempre, e resolvi andar até o bar para conseguir uma água trombando em várias pessoas, cabelos sendo jogados na minha cara, copos de bebida sendo derramados nos meus sapatos além de cotoveladas na minha orelha. Quando o garçom me convenceu de tomar um suco ao invés de água escutei uma voz feminina me chamando de "loira aguada"
_Você me conhece? - perguntei me preparando para escapar de um soco.
_Não se lembra de mim? Fomos amigas quando você trabalhava no Jardim Rosas.
Quando escutei a palavra Jardim Rosas, imediatamente me coloquei em posição de defesa. Em uma fração de segundos eu consegui vasculhar com dois olhares os quatro cantos da Casa de Show e encontrei uma saída na lateral do palco. Eu não sei como consigo encontrar saídas tão rapidamente e tão convenientemente quando estou correndo algum tipo de perigo por menor que seja, mas não quero pensar muito nisso, somente quero agradecer meus genes por me ajudarem tão rápido.
_Calma Jane, ficou tão pálida de repente. Pode aproveitar o show, estou indo embora mesmo. Não se preocupe. Já passou, não guardo rancor de nada.
Me virei de volta para o balcão, peguei meu suco e comecei a andar na direção da saída jogando meus cabelos loiros e bagunçados nas caras das pessoas que me atrapalhavam, derrubando meu suco nos pés de alguns rapazes inconvenientes no meu caminho e dando cotoveladas nas orelhas de algumas adolescentes escandalosas. Nunca consegui chegar tão rápido em algum lugar. Acho que aprendi como sobreviver nesse tipo de selva. Após alguns goles de suco comecei a me sentir estranhamente cansada, como se tivesse carregado sacos de areia durante 10 horas seguidas. Meu corpo começou a ficar dormente e minhas pernas cambalearam até não conseguir mais me mover. Senti um par de braços enormes segurando minhas costas e meus joelhos e de repente eu estava na posição horizontal, mas não era minha cama, não estava deitada em terra firme, parecia que estava flutuando mas não pela minha própria vontade.

Tentei abri os olhos mas minha cabeça latejou tão intensamente que desisti e resolvi pensar em onde estava. Comecei a tatear em volta e senti um tecido macio parecido com veludo. Não era uma cama, pois não senti os lencóis, apenas o veludo. Ainda estava completamente vestida, mas sabia que não estava em casa.
-Jane?
_ Eric?
Era Eric?? Como ele havia me encontrado? Como eu tinha ido parar no sofá de veludo de Eric?  A última coisa de que me lembro era estar quase desmaiando em uma Casa de Show após ter encontrado Anna Clara.
_ Você desmaiou em um show de música sertaneja e se eu não tivesse te socorrido acho que Anna Clara te roubaria até as calcinhas por vingança. Acho que ela drogou você.
Eu não posso agradecer Eric pois ele me salvara tantas vezes que ficaria a vida inteira dizendo "Obrigada".
Quando consegui me levantar do sofá senti uma brisa estranha, o vento era diferente, quente e úmido com cheiro diferente. Enquanto ele preparava o café eu andei pelo apartamento até uma varanda e quando a abri vi o oceano azul imenso bem diante dos meus olhos. A casa estava no alto de uma colina e abaixo das árvores eu conseguia ver as pedras que íamos pescar quando estávamos juntos. Não consegui avistar areia, apenas as grandes pedras que Eric gostava de passar as madrugadas de verão pescando, pensando e esperando o sol nascer para me levar para o café da manhã. Apesar da familiaridade da situação eu me senti uma estranha naquela casa.
_O que estou fazendo na Praia da Baleia? Isso é sequestro.
_Quero te mostrar uma coisa.
_Já conheço o que os plânctons fazem com a água, você já me mostrou, lembra?
_ Não é isso, Jane. Ainda confia em mim?
Segui o Dragão mais uma vez pela praia e pela primeira vez na vida eu vi algo que mudaria para sempre minha visão do planeta. Somos seres imensamente ignorantes e talvez inocentes e não sabemos da missa a metade.

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Cristalina


PERIGO: situação ou condição de risco com probabilidade de causar lesão física ou dano à sáude das pessoas por ausência de medidas de controle.
Pois bem segundo essa definição fica claro que todo perigo é um risco não controlado.

 

 

As árvores estavam cada vez mais altas e a floresta parecia cada vez mais densa. Eu já conseguia escutar o som de água corrente mas ainda não conseguia distinguir se o som vinha do final da trilha a minha frente ou se corria paralelamente ao nosso caminho. Após duas horas de caminhada eu já não seguia mais Justin. Tinha ficado para trás, mas eu sabia que estava no caminho certo pois a trilha estava intacta mesmo depois de dois anos sem  receber campistas.

As montanhas naquele lado tinham ficado perigosas após um incêndio monstruoso ter devastado a parte mais selvagem das florestas ao redor de nossa cidade. Os animais correram para o lado dos campings onde havia o rio. Ninguém mais explorava aquela área, mas eu tinha visto o lugar mais lindo da minha vida ali e queria voltar. Justin não era um dos homens mais cautelosos que eu conhecia, quando decidi subir a trilha ele foi o primeiro e único a se oferecer. Eu não sabia que ele faria isso mesmo estando mais entediado do que eu. Aceitei pois apesar de colocar nossas vidas em risco, sinto que se meu coração não está acelerado não estou viva, portanto acabo caindo no tédio eterno de sempre.

Quando avistei a água verde e cristalina após afastar as últimas folhas do meu caminho, lembrei imediatamente da paisagem incrível que vi naquele lugar e o motivo pelo qual eu queria voltar. A névoa da manhã cobria a água como um cobertor e os raios de sol que entravam pelo meio das montanhas faziam as partes descobertas da  água brilharem em uma cor que eu nem sabia que existia.

Tirei meu tênis e apesar do frio e temperatura extremamente baixa da água entrei na parte rasa. Quando meus pés tocaram a água fria e verde  meu corpo inteiro congelou, fechei meus olhos esperando me acostumar e quando abri vi Justin acenando e gritando meu nome do outro lado do rio. O que ele estava fazendo tão longe? O rio é enorme não consigo atravessar, além da forte correnteza, é fundo demais e frio demais.  Pelo barulho alto da água correndo e a distância de Justin eu não conseguia ouvi-lo perfeitamente mas ele acenava desesperadamente e abria a boca como um grito que eu não conseguia escutar e muito menos ler seus lábios. Quando ele apontou na minha direção e imitou um animal não precisei olhar para trás, eu sabia o que estava chegando perto. Por um segundo não movi um músculo e um fio de cabelo. Eu nunca me considerei uma donzela em apuros precisando ser salva a todo momento mas estava sempre correndo perigo. Olhei para o outro lado do rio desejando ser uma personagem no filme Jumper. Quando eu conheci Justin,  estacionava o carro numa vaga impossível e ele me olhou da calçada como se estivesse vendo a pior motorista do mundo. Agora ele me olhava como se estivesse vendo a mulher mais azarada do mundo.

A onça andava calmamente na minha direção e não parecia estar caçando, só parecia curiosa. Olhei para o rio e ele parecia extremamente convidativo agora. Imaginei uma piscina de água quente e tirei minha mochila do ombro bem devagar. Nesse momento a onça parou e me olhou, empinou o focinho como se tentasse sentir meu cheiro e fungou.

“Minha hora chegou”  - meu coração acelerou diferente e me senti mais viva do que nunca, talvez por estar tão perto da morte, lamentei nunca ter beijado Justin , lamentei ter uma personalidade tão perdida e procurar por situações exageradas e prometi  para a vida que se ela me salvasse eu nunca mais sentiria tédio novamente.

Foi então que escutei o tiro. O homem de mais de 2 metros de altura, segurando o maior rifle de caça que já vi,  havia atirado na onça. Ele tinha a feição de um psicopata e usava botas muito velhas e sujas. Pensei que estivesse morta e olhei para o outro lado do rio. Justin não estava mais lá.

_ Considere isso um aviso. Agora saia dessas montanhas e não volte mais. – a voz dele era baixa e aguda. Eu soube que ainda estava viva e que aquilo era realidade quando Justin me abraçou e perguntou se eu estava bem.

 

Nunca beijei alguém com tanta intensidade em toda minha vida.