terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Frágil

Quando um osso se quebra, os vasos sanguíneos em seu interior se rompem, causando sangramento e a formação de um coágulo. O local inflama, mas, em 24 horas, as extremidades dos vasos rompidos são vedadas, estancando quase por completo a hemorragia. A região da fratura fica cheia de pedacinhos do osso quebrado e tecidos mortos, que são removidos pela ação de células chamadas osteoclastos. Elas fagocitam ("comem" e "digerem") esses fragmentos. Desde as primeiras horas após a contusão, também entram em ação os angioblastos, células responsáveis pela formação dos vasos sanguíneos. Elas darão origem a novos vasos dentro do osso e irão reparar outros que se romperam com a fratura. Ao mesmo tempo, a medula óssea começa a se regenerar. 
 
Não imagino um funcionamento de uma máquina mais inteligente que a capacidade do corpo humano de se recuperar.
 
 
 
 
Bill sentou-se ao meu lado na mesa e começou a tirar os rótulos das garrafas de cerveja. Tentei me distrair com a música mas fiquei imaginando o que aconteceria se não atendesse mais suas ligações. Aquele silêncio me perturbava um pouco, Bill não é silencioso e nunca preciso tentar adivinhar seus pensamentos, ele sempre os revela sem rodeios. Tentei dessa vez mas era impossível.
Eu não poderia jamais imaginar que ele se desencantasse ou se perdesse por outros lugares. Seria egoísmo demais querer mantê-lo por perto o tempo todo. Além disso era difícil amar alguém e saber que essa pessoa não te ama com a mesma intensidade, mas talvez nosso relacionamento não fosse adorável só para mim. Talvez aquilo bastasse, cobrisse um buraco negro em nossas vidas. Eu sempre quis mais do que Bill me dava e agora eu tinha medo de perder o pouco que me restava.
Sempre achei o Ser Humano extremamente frágil. Nossos ossos, nossa pele, são facilmente quebráveis ou penetráveis por objetos cortantes, afiados ou armas de fogo. Mas na verdade nossa maior fragilidade está nos sentimentos e não no físico.
Na verdade, não somos assim tão frágeis, nosso corpo se recupera, nossa pele se regenera, nossos ossos se grudam novamente, o corpo humano é uma máquina perfeita e inteligente. Funciona quase que como uma mágica. Mas naquele momento tive medo de esmagar meu coração mais do que levar um tiro ou bater o carro.







 

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Fuga


O Dragão de Komodo é um dos animais mais temidos e perigosos. Trata-se da maior espécie de lagarto conhecida.  No interior de sua mandíbula habitam bactérias letais. Para se alimentar, o Dragão de Komodo ataca sorrateiramente com uma mordida e espera sua vítima morrer pela infecção produzida pelas bactérias. O lagarto segue a vítima durante algum tempo até que a infecção se encarrega de prostrá-la, quando é então calmamente devorada.

Eu me sentia exatamente assim. Como se uma ferida horrível estivesse aberta em meu corpo e eu estivesse apenas aguardando que a infeccção se espalhasse até a minha morte. Sem poder fazer nada para impedir, pois não havia remédios o suficiente ao meu alcance. A ferida havia sido causada por algo bem diferente de uma mordida do lagarto gigante.

As folhas estavam cada vez maiores. A subida estava bem íngreme agora. Apesar de ter ficado um pouco distante dos outros turistas, eu conseguia ouvi-los conversando perfeitamente. Eles falavam em inglês, o que tornava a caminhada mais fácil, pois o assunto me mantinha entretida. O barulho do mar estava cada vez mais distante me dando a impressão de que estávamos cada vez mais perto do centro da ilha. Escutei o grupo rindo alto e fiquei aliviada por perceber que não havia nada assustador onde eles estavam, e que o caminho era mais tranquilo do que imaginei. Cohen caminhava na minha frente afastando as folhas enormes do meu caminho com um cavalheirismo impressionante. Quando ele soube o que Bill havia dito me olhou com um brilho nos olhos que eu nunca havia visto em ninguém. Ele não ficou com pena e muito menos tentou me consolar, ele apenas me perguntou o que eu queria fazer agora e que se não o convidasse ele ficaria triste. Senti como se ele havia esperado aquele momento por um bom tempo. Enquanto eu me esforçava para acompanhar o ritmo de Cohen não conseguia afastar o pensamento de Bill e o motivo pelo qual ele não se interessava por mim como Cohen e Eric. O que eu não mostrei a ele que os outros viam o tempo todo? O que ele não conseguia ver em mim que era tão claro e transparente para os outros? Será que era esse o motivo da minha atração? Ou eu estava apenas sendo pretensiosa de achar que alguém que valorizava tanto a beleza acima de todas as outras características de uma mulher sairia tanto tempo comigo? Senti uma gota de suor brotando atrás de meu joelho e escorrendo pela minha perna e olhei para baixo. Minha micro regata estava banhada em suor e meu menor ainda short estava molhado como se eu tivesse entrado no mar de roupa. Estava tanto calor que quando olhei para as costas de Cohen percebi que ele ia sofrer para tomar banho com aquele bronzeado.

_ Quer protetor solar? Você decidiu não trazer nada, mas a minha mochila tem água, protetor e uma toalha. Posso praticamente salvar sua vida. – soltei uma risada baixa e Cohen olhou para mim com um olhar irônico.

_ Jane, não exagere, você é a fraquinha aqui, eu aguento qualquer parada.

_A gente conversa quando a água do chuveiro atingir suas costas.

Cohen é um dos homens mais atraentes que já conheci, porém ele não transmitia nenhuma emoção. Eu não sabia quando ele estava triste ou feliz. Quando algo na sua vida estava certo ou errado. Eu sabia de seu interesse por mim, pois ele havia voado do meu lado mais de 25 horas para chegar onde estávamos. Quando conhecemos alguém por muito tempo é fácil diferenciar os sentimentos de tristeza ou alegria, interesse ou falta de interesse, tédio ou cansaço, qualquer coisa. Sempre fui muito observadora nesse ponto. Mas em se tratando de Cohen isso era quase impossível. Era. Até aquele momento.

_ Jane, não consigo mais escutar os turistas conversando. Será que eles entraram em alguma trilha paralela? Estamos caminhando em uma reta há mais de 40 minutos e faz 20 minutos que parei de ouvi-los.

_ Não faz isso comigo. Para de brincar com coisa séria, não tem graça. Estamos quase no centro da ilha não escuto mais as ondas e aqui não pega celular. Não podemos estar perdidos.

_Não tenho medo de estar perdido, Jane, é fácil voltar pelo mesmo caminho que viemos se por acaso nos separarmos do grupo. Não é isso. Só estou curioso, não consigo ver outra trilha em lugar nenhum, eles não teriam entrado no meio da mata selvagem.

Quando escutei o primeiro grito tive um impulso incontrolável de correr na direção contrária. Senti Cohen me segurando forte e me impedindo de sair de onde estava e de repente senti sua mão tampando minha boca pra eu não gritar e fazendo sinal para manter silêncio. Meu corpo inteiro tremia e pela primeira vez em 14 dias senti frio. Pensei que poderia ser um animal, mas não existem animais capazes de silenciar um grupo enorme de japoneses em uma ilha próxima a Mauna kea, era mais fácil um vulcão ter entrado em erupção.

 - Se eu quisesse morrer teria ido para a ilha de Komodo na Indonésia e não para o Havaí, por favor, me deixe correr, Cohen.

Quando olhei para os olhos dele senti que correr não adiantaria nada.

 

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013


Carta para Bill

 

_ Eu não fui sincera com você.  _ confessei em um tom de voz impossível de ser ouvido, mas Bill escutou e respondeu.

_Eu sei.

_ Não pude correr o risco de vê-la com você. E se ela aparecesse? Moon quer você de volta e ela não parece uma garota que desiste tão fácil.

_Mas você parece. Jane, nunca a vi insistir, nunca a vi lutar por mim.

_ Não tenho forças para isso.

_ O que acontece?

Eu nunca disse nada, pois eu sabia que não faria diferença. As pessoas que precisam ser conquistadas nunca te proporcionam um relacionamento normal. Quando uma pessoa reage naturalmente a um convite para sair, ela está disponível em todos os sentidos. Quando você precisa insistir ou usar armas de conquistas, essa pessoa não está disponível e você precisa ganha-la de alguma maneira. Não é natural. Se você precisou ganha-la uma vez, precisará sempre.

_ Eu não quero tentar te conquistar, eu não quero lutar por você, isso não existe. Ou as pessoas se gostam naturalmente ou elas não se gostam, ninguém ganha ninguém. Se eu preciso lutar por você significa que você não gosta de mim naturalmente. E isso eu sei, mas não quero ter a certeza, porque se eu tiver a certeza, vou me partir em um milhão de pedaços e nunca mais vou conseguir juntar de volta, pois por mais que eu não diga o tempo todo, por mais que eu sempre vá embora correndo, nunca te ligue para dizer boa noite ou bom dia ou para saber o que você está fazendo, por mais que eu namore outros homens, beije outros homens ou me case com outro homem, a verdade é que eu tive os melhores momentos da minha vida do seu lado, e eu te amei, te amo e vou te amar para sempre.

 

 

 

domingo, 17 de novembro de 2013

Passado

Dizem que para esquecer uma pessoa é preciso escrever sobre ela. Mesmo que eu escreva livros a vida inteira, ainda assim nunca me esquecerei de Bill.

_ Jane! Anda logo! Não quero sair muito tarde e pegar fila na porta. O show começa exatamente a meia-noite e ainda temos uma hora de estrada.
Enquanto Joanna gritava na cozinha eu terminava de passar rímel na frente do espelho exageradamente grande do meu banheiro. O espelho ocupava a parede inteira acima da pia e eu me perguntei se algum dia eu comprasse um apartamento, teria dinheiro para instalar um espelho como aquele. Provavelmente não.
_ Me diga por qual motivo exatamente temos que chegar tão cedo neste lugar Joanna.  - perguntei sabendo que ela me daria uma explicação escalafobética e eu ganharia tempo de escolher os sapatos enquanto a escutava.
Quando chegamos na famosa Casa de Show para assistir uma banda de música sertaneja, me arrependi imediatamente. O único motivo que me impedia de voltar para o carro e dirigir para bem longe eram as longas horas de sermão de Joanna.
As paredes eram todas de madeira imitando um estábulo antigo. Cabeças de gado empalhadas enormes surgiam das paredes perto do palco, como em uma casa de fazenda. As pessoas estavam vestidas bem parecidas umas com as outras, e acabei trombando em vários chapéus de "cowboy", um deles deixou meu olho bem vermelho, e pensei " Ah que ótimo, além de parecer entediada agora as pessoas vão achar que sou maconheira."
Joanna desapareceu em menos de 35 minutos, como sempre, e resolvi andar até o bar para conseguir uma água trombando em várias pessoas, cabelos sendo jogados na minha cara, copos de bebida sendo derramados nos meus sapatos além de cotoveladas na minha orelha. Quando o garçom me convenceu de tomar um suco ao invés de água escutei uma voz feminina me chamando de "loira aguada"
_Você me conhece? - perguntei me preparando para escapar de um soco.
_Não se lembra de mim? Fomos amigas quando você trabalhava no Jardim Rosas.
Quando escutei a palavra Jardim Rosas, imediatamente me coloquei em posição de defesa. Em uma fração de segundos eu consegui vasculhar com dois olhares os quatro cantos da Casa de Show e encontrei uma saída na lateral do palco. Eu não sei como consigo encontrar saídas tão rapidamente e tão convenientemente quando estou correndo algum tipo de perigo por menor que seja, mas não quero pensar muito nisso, somente quero agradecer meus genes por me ajudarem tão rápido.
_Calma Jane, ficou tão pálida de repente. Pode aproveitar o show, estou indo embora mesmo. Não se preocupe. Já passou, não guardo rancor de nada.
Me virei de volta para o balcão, peguei meu suco e comecei a andar na direção da saída jogando meus cabelos loiros e bagunçados nas caras das pessoas que me atrapalhavam, derrubando meu suco nos pés de alguns rapazes inconvenientes no meu caminho e dando cotoveladas nas orelhas de algumas adolescentes escandalosas. Nunca consegui chegar tão rápido em algum lugar. Acho que aprendi como sobreviver nesse tipo de selva. Após alguns goles de suco comecei a me sentir estranhamente cansada, como se tivesse carregado sacos de areia durante 10 horas seguidas. Meu corpo começou a ficar dormente e minhas pernas cambalearam até não conseguir mais me mover. Senti um par de braços enormes segurando minhas costas e meus joelhos e de repente eu estava na posição horizontal, mas não era minha cama, não estava deitada em terra firme, parecia que estava flutuando mas não pela minha própria vontade.

Tentei abri os olhos mas minha cabeça latejou tão intensamente que desisti e resolvi pensar em onde estava. Comecei a tatear em volta e senti um tecido macio parecido com veludo. Não era uma cama, pois não senti os lencóis, apenas o veludo. Ainda estava completamente vestida, mas sabia que não estava em casa.
-Jane?
_ Eric?
Era Eric?? Como ele havia me encontrado? Como eu tinha ido parar no sofá de veludo de Eric?  A última coisa de que me lembro era estar quase desmaiando em uma Casa de Show após ter encontrado Anna Clara.
_ Você desmaiou em um show de música sertaneja e se eu não tivesse te socorrido acho que Anna Clara te roubaria até as calcinhas por vingança. Acho que ela drogou você.
Eu não posso agradecer Eric pois ele me salvara tantas vezes que ficaria a vida inteira dizendo "Obrigada".
Quando consegui me levantar do sofá senti uma brisa estranha, o vento era diferente, quente e úmido com cheiro diferente. Enquanto ele preparava o café eu andei pelo apartamento até uma varanda e quando a abri vi o oceano azul imenso bem diante dos meus olhos. A casa estava no alto de uma colina e abaixo das árvores eu conseguia ver as pedras que íamos pescar quando estávamos juntos. Não consegui avistar areia, apenas as grandes pedras que Eric gostava de passar as madrugadas de verão pescando, pensando e esperando o sol nascer para me levar para o café da manhã. Apesar da familiaridade da situação eu me senti uma estranha naquela casa.
_O que estou fazendo na Praia da Baleia? Isso é sequestro.
_Quero te mostrar uma coisa.
_Já conheço o que os plânctons fazem com a água, você já me mostrou, lembra?
_ Não é isso, Jane. Ainda confia em mim?
Segui o Dragão mais uma vez pela praia e pela primeira vez na vida eu vi algo que mudaria para sempre minha visão do planeta. Somos seres imensamente ignorantes e talvez inocentes e não sabemos da missa a metade.

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Cristalina


PERIGO: situação ou condição de risco com probabilidade de causar lesão física ou dano à sáude das pessoas por ausência de medidas de controle.
Pois bem segundo essa definição fica claro que todo perigo é um risco não controlado.

 

 

As árvores estavam cada vez mais altas e a floresta parecia cada vez mais densa. Eu já conseguia escutar o som de água corrente mas ainda não conseguia distinguir se o som vinha do final da trilha a minha frente ou se corria paralelamente ao nosso caminho. Após duas horas de caminhada eu já não seguia mais Justin. Tinha ficado para trás, mas eu sabia que estava no caminho certo pois a trilha estava intacta mesmo depois de dois anos sem  receber campistas.

As montanhas naquele lado tinham ficado perigosas após um incêndio monstruoso ter devastado a parte mais selvagem das florestas ao redor de nossa cidade. Os animais correram para o lado dos campings onde havia o rio. Ninguém mais explorava aquela área, mas eu tinha visto o lugar mais lindo da minha vida ali e queria voltar. Justin não era um dos homens mais cautelosos que eu conhecia, quando decidi subir a trilha ele foi o primeiro e único a se oferecer. Eu não sabia que ele faria isso mesmo estando mais entediado do que eu. Aceitei pois apesar de colocar nossas vidas em risco, sinto que se meu coração não está acelerado não estou viva, portanto acabo caindo no tédio eterno de sempre.

Quando avistei a água verde e cristalina após afastar as últimas folhas do meu caminho, lembrei imediatamente da paisagem incrível que vi naquele lugar e o motivo pelo qual eu queria voltar. A névoa da manhã cobria a água como um cobertor e os raios de sol que entravam pelo meio das montanhas faziam as partes descobertas da  água brilharem em uma cor que eu nem sabia que existia.

Tirei meu tênis e apesar do frio e temperatura extremamente baixa da água entrei na parte rasa. Quando meus pés tocaram a água fria e verde  meu corpo inteiro congelou, fechei meus olhos esperando me acostumar e quando abri vi Justin acenando e gritando meu nome do outro lado do rio. O que ele estava fazendo tão longe? O rio é enorme não consigo atravessar, além da forte correnteza, é fundo demais e frio demais.  Pelo barulho alto da água correndo e a distância de Justin eu não conseguia ouvi-lo perfeitamente mas ele acenava desesperadamente e abria a boca como um grito que eu não conseguia escutar e muito menos ler seus lábios. Quando ele apontou na minha direção e imitou um animal não precisei olhar para trás, eu sabia o que estava chegando perto. Por um segundo não movi um músculo e um fio de cabelo. Eu nunca me considerei uma donzela em apuros precisando ser salva a todo momento mas estava sempre correndo perigo. Olhei para o outro lado do rio desejando ser uma personagem no filme Jumper. Quando eu conheci Justin,  estacionava o carro numa vaga impossível e ele me olhou da calçada como se estivesse vendo a pior motorista do mundo. Agora ele me olhava como se estivesse vendo a mulher mais azarada do mundo.

A onça andava calmamente na minha direção e não parecia estar caçando, só parecia curiosa. Olhei para o rio e ele parecia extremamente convidativo agora. Imaginei uma piscina de água quente e tirei minha mochila do ombro bem devagar. Nesse momento a onça parou e me olhou, empinou o focinho como se tentasse sentir meu cheiro e fungou.

“Minha hora chegou”  - meu coração acelerou diferente e me senti mais viva do que nunca, talvez por estar tão perto da morte, lamentei nunca ter beijado Justin , lamentei ter uma personalidade tão perdida e procurar por situações exageradas e prometi  para a vida que se ela me salvasse eu nunca mais sentiria tédio novamente.

Foi então que escutei o tiro. O homem de mais de 2 metros de altura, segurando o maior rifle de caça que já vi,  havia atirado na onça. Ele tinha a feição de um psicopata e usava botas muito velhas e sujas. Pensei que estivesse morta e olhei para o outro lado do rio. Justin não estava mais lá.

_ Considere isso um aviso. Agora saia dessas montanhas e não volte mais. – a voz dele era baixa e aguda. Eu soube que ainda estava viva e que aquilo era realidade quando Justin me abraçou e perguntou se eu estava bem.

 

Nunca beijei alguém com tanta intensidade em toda minha vida.

segunda-feira, 27 de maio de 2013

 The Moon


“ Por que nos apaixonamos por uma pessoa mesmo sabendo que ela é errada?

— Essa eu sei a resposta. Porque você espera estar enganado, e sempre que ela faz uma coisa que mostra que ela não é boa, você ignora, e sempre que ela age bem e te surpreende, ela te reconquista. E então você esquece a idéia de que ela não serve para você.”

 
Do filme “ O amor não tira férias”

 
Eu não sabia que o barzinho estaria tão cheio. A aniversariante tinha muitos amigos e todos gostavam daquela situação, mas considerando o frio que fazia na cidade e no número de casacos que todos teriam que vestir para tomar uma cerveja gelada e sentir mais frio ainda, tive esperanças.
_Você conhece a Green de onde?  - um adolescente com olhos vermelhos me perguntou cuspindo para todo lado.
“ De um lugar onde as fadas não são perturbadas por adolescentes brisados que não sabem que o verde da grama que ele pisa todos os dias não é tão verde quanto o lugar distante de tudo que ele já viu na vida mostra.”
- Do trabalho. Preciso conversar com uma amiga. Licença. – respondi e andei para o outro lado do bar fingindo estar procurando alguém e querendo escapulir silenciosamente para minha cama quentinha antes de Green notar minha ausência.
_ Seu nome é Jane?
Escutei uma voz rouca vindo do meu lado esquerdo e soube que passaria frio por pelo menos mais uma hora.
_ Sim. Você me conhece? Desculpe... não lembro de você.
_ Sou o pai da Green, meu nome é Alcide, te reconheci pela foto.
Quando ele me ofereceu o vinho, que eu não aceitei, pois nunca aceito vinho quando converso com um homem que não conheço, o frio aumentou e decidi voltar para a mesa e pedir um refrigerante. Eu poderia dormir mais tarde para conversar com Alcide, afinal de contas, ele era o homem mais velho e interessante do bar.
Quando estávamos quase chegando perto da mesa, o adolescente brisado me olhou com expressão de dúvida nos olhos e quase gritei minha idade para ele , apesar de não ter escutado pergunta alguma  mas algo me dizia que ele não imaginava.
Foi quando a vi.
O cabelo comprido e esvoaçante chegava envolvendo os olhares do bar inteiro. O rosto vermelho por causa do frio e a expressão séria de quem não estava no lugar preferido me tirou a atenção de tudo em volta. Moon não tinha a delicadeza feminina de uma mulher que conquista qualquer tipo de homem, mas era de uma beleza natural, daquelas que podem acampar na praia deserta por meses e acordar encantando até os passarinhos.
Voei meu olhar pelos quatro cantos do bar, permitindo que meu QI acima da média planejasse e calculasse em menos de dois segundos a saída perfeita sem que uma alma viva naquela espelunca sequer lembrasse que estive lá por longas duas horas.
Enquanto o pai da Green me contava suas magníficas histórias de veleiros no Caribe, consegui um resultado da matemática toda. Até que não era tão difícil, considerando o tamanho de Alcide e as quatro vezes por semana de malhação intensa para parecer o Hulk.
_ Está muito frio aqui, Alcide. Eu estou morrendo por um café espresso quentinho com chantilly. O que acha?
_ Green!!! Green!!! Vou sair para um café  com a Jane, pegue as chaves do carro e volte com segurança.
Oh Não! A minha matemática perfeita não calculou o escândalo de Alcide. Moon me olhou com a expressão mais fria que já vi na vida e eu congelei. Imaginei duas cenas em uma fração de segundos e nas duas meu olho estava roxo e meu lábio superior sangrava. Ela sabia exatamente quem eu era e o que tinha feito. Muitas coisas estavam escondidas mas o que mais importava para ela, estava claro e transparente como água. Todas as curiosidades que me assombravam a respeito dela foram desaparecendo com o medo tomando conta. Meu medo não era de encará-la , mas encarar o resultado de uma situação que prejudicaria Bill e seu relacionamento com a garota de seus sonhos.
Enquanto Moon andava na minha direção, todas as perguntas na minha cabeça com relação a essa garota me confundiam. Eu queria ouvir sua voz eu queria entender o que era tão especial além da aparência física mas ao mesmo tempo eu queria correr.
_ OI, Jane.
_(...) _ eu estava muda.
_ Pela sua cara eu imagino que dispenso apresentações.
_(...) _continuei muda
_ Eu queria saber se está tudo bem. Eu quero saber a verdade. O que houve?
Eu queria dizer para ela que sou a última das preocupações de sua vida ou de seu relacionamento, que nunca mais ela vai ouvir meu nome ou me ver em qualquer situação relacionada a Bill, que ele nunca me amou como ele a ama e que se algum dia ela deixá-lo para sempre ele sofrerá  e eu estarei bem longe, pois não sou tão importante para ele a ponto de ficar ali para sempre. Não tenho poder para isso, nunca tive, ele nunca vai me aceitar como namorada, mas a única palavra que saiu de minha boca foi:
_ Nada.

 

 

terça-feira, 5 de março de 2013

Curiosidade


A curiosidade humana é o desejo do ser humano de ver ou conhecer algo até então desconhecido. A curiosidade, porém, quando ultrapassa um limite pré-estabelecido pela ética social, como por exemplo a invasão de espaço alheio, pode ser reprimida. Alguns termos populares podem designar alguém demasiadamente curioso: xereta, intrometido, bicão, intruso.
Não me classifico em nenhum destes termos.


O frio daquela noite estava proporcionando um clima agradável para mim porém um momento de humor negro para Joana.
_ Não entendo até hoje os tecidos de lã que as pessoas usam no pescoço no inverno e insistem em chamar de cachecol. Eles deviam chamar de " FORCA". Isso vai asfixiar alguém algum dia no metrô. Imagina as manchetes dos jornais:
" Mais uma pessoa morta por cachecol preso na porta do metrô", " Asfixiada em um piscar de olhos" Ninguém notou sua morte até que seus olhos escaparam para fora como num filme de terror"...
_ Joana , você conseguiu criar 3 manchetes em um parágrafo? O que há de errado? Já estamos quase chegando. _ eu disse tentando acalmá-la, mas foi inútil.
_Quase chegando? Quero ver as manchetes do jornal quando morrermos nesta estrada macabra. Estou dirigindo há duas horas aqui e não consigo encontrar a saída para essa tal chácara. Bendita hora que resolvi ir nesta festa estranha..
Joana recebera um convite em um grande envelope preto somente com um endereço e uma chave. Entre tantos convites que ela recebe por fim de semana, este me chamou atenção e não precisei muito para convencê-la a me levar. Eu disse que seria uma boa ocasião para ela usar o novo vestido estampado que estava louco para ser exibido!
Assim que abri o envelope e a chave escorregou no meu colo percebi que não era algo simples, aquele tipo de convite com textura imitando tecido e impressão em relevo americano era bem claro para mim:
_Joana, esta festa é em uma mansão.
_ Eu só quero ver se chegarmos lá e encontrarmos  um churrascão na laje.
O churrascão na laje ficou pairando no ar quando Joana parou o carro em frente ao enorme portão entre os muros de pedra com aparência de castelo abandonado. Um tanto cafona diga-se de passagem. Após Joana mostrar a chave na câmera, o portão se abriu automaticamente e entramos na pequena estrada de terra até a porta da mansão.
_ Nossa , Jane!! Você tinha toda razão! É uma mansão e é maravilhosa! Ai agora sim, fiquei animada!
Meu primeiro pensamento foi inevitável. Estamos em 2013. Quem são essas pessoas? A estrada macabra nos levou para o ano de 1513. Que legal, máquinas do tempo realmente existem.. bom saber!
Após alguns minutos de vinho, Joana encontrou alguns conhecidos e esqueceu completamente minha presença. Bom... nós não nascemos e morremos acompanhados, certo? Com exceção de gêmeos siameses, que nascem acompanhados, nós fazemos isso sozinhos. Pois então, podemos fazer qualquer coisa sozinhos.
Enquanto eu caminhava calmamente pelos corredores da exagerada mansão, o barulho da festa ia diminuindo. Os corredores começaram a parecer menores e com algumas portas trancadas. A decoração das portas eram todas com inspiração do período Barroco. Esculturas perfeitas de anjos que pareciam sair de dentro das paredes em sua direção querendo dizer algo. Minha curiosidade me levava por mais corredores até que encontrei uma porta aberta. Não seria eu se não entrasse.
_ O que está fazendo aqui?
Levei o maior susto da minha vida.
_Desculpe, é uma biblioteca, certo? E estava com a porta aberta, eu tenho a chave para a festa.. não estou invadindo. _ tentei me defender um pouco atrapalhada
_ A festa é no salão principal, deve ter andado muito para chegar até aqui. O que houve? Ficou entediada?
Em uma das prateleiras pensei ter visto o olho de um dragão na capa de um livro. Me aproximei da prateleira e retirei o livro de cima do monte desorganizado.
_ Ah que ótimo agora além de invasora você decide ler um pouco?
_ Este livro tem uma característica bem diferente das demais obras de Stephen King.
_Sim, ele escreveu pensando em criar algo especial para sua pequena filha.
_ Parece que ele está contando uma lenda em voz alta.
_Sim, é uma fábula.
_ Gosta de livros de terror?
_ Não, mas você parece uma mulher meio macabra, nem vou perguntar.
_ Pois é, minha "macabrice" não combina com a época. Eu sou do futuro.
_Como?
_ Vim do ano de 2013, por uma estrada escura que cruza uma floresta.
_E posso perguntar em que ano você acha que está?
_ Pela decoração da casa, eu diria, 1513.
_ Ah sim..período Barroco, você gostou dos anjos?
_ Não.
_E se fossem demônios? Ficaria com medo?
_Não tenho medo de nada. Você deveria ter percebido isso quando me viu entrando na biblioteca.
_ Eu não durmo. Não me importo com a insônia, pelo menos tenho tempo para ler. Não me importo com a festa também, acho que as pessoas tem diferentes interesses, mas todos eles ali naquele salão se resumem a uma coisa...
_...dinheiro?
_ Sim.
_Acredita em demônios?
_Acredito que as pessoas possam materializar qualquer coisa que elas desejam. O cérebro é poderoso o suficiente para permitir isso. Nós o usamos o tempo todo mas não temos o poder para controlá-lo como  queremos. O que existe na Terra não é somente o que você enxerga com seus olhos castanhos e humanos. Pode ver muito além se quiser.
_Por quê alguém iria desejar ver um demônio?
_ Não sei. Você deveria perguntar isso a si mesma, Jane, afinal de contas, você não só está me vendo como está conversando comigo...