segunda-feira, 6 de julho de 2015

Sem Coração




Todas as caixas estavam vazias e empilhadas na área de fora da casa.  Seriam recolhidas no dia seguinte às oito da manhã e então tudo estaria arrumado e perfeito.  Olhei em volta e meu sorriso bobo inundou a cozinha. A geladeira estava lotada, todos os móveis eram lindos, estava perto da natureza e podia criar os animais perto de seu habitat natural. Terminei de alimentar os cavalos e tranquei as portas. O cansaço me ajudou a dormir um sono profundo por 9 horas seguidas. Bom, pelo menos eu achei que tinha dormido durante 9 horas.

Acordei  sentindo algo úmido e áspero passando pelo meu rosto em movimentos contínuos e rápidos. Abri os olhos e vi bem de perto os dentes do meu cachorro mais novo, que  estavam prestes a morder meu nariz. Virei o rosto e gritei um não abafado que quase não saiu e senti  uma dor horrível no peito. Não conseguia me mover nem levantar da minha cama e olhei meu cachorro mais uma vez. Agora com ele bem perto notei que seus pelos estavam diferente, um pouco desgrenhados e bem perto de seu nariz havia um verruga comum nesta raça quando ficam mais velhos.  Tentei levantar novamente e não consegui. Olhei para meu peito dolorido e no lugar de meu coração havia um buraco e um pouco de sangue. Do susto consegui juntar forças, pulei da cama desesperada e consegui andar até o banheiro. Olhei no espelho e para meu terror lá estava: meu peito completamente vazio.
Abri as gavetas do banheiro desesperada ainda confusa sobre o que estava procurando e encontrei agulhas e linhas. Rapidamente costurei meu peito para estancar o pouco de sangue, fiz um curativo e vesti uma roupa. Quando saí do banheiro o pânico piorou. Algo estava errado.  Quando me virei percebi que além de terem roubado meu coração eu estava cinco anos mais velha.  Minha pele estava pálida, meus olhos inchados e os contornos em volta deles estavam mais roxos que uma beterraba, e meu corpo curvado e muito magro me olhava no espelho. Como aquilo poderia estar acontecendo? Saí correndo do banheiro a procurar meus cachorros mais velhos e eles haviam sumido. Encontrei três túmulos pequenos  no jardim  e dois  grandes na colina mais acima. Cinco animais já haviam partido. Não tive vontade de chorar, me concentrei em afastar o pânico e a confusão e então entendi que sem meu coração, não poderia viver.
Alimentei os animais, arrumei a casa, fiz comida, precisava de alimentos para ter forças e coloquei uma troca de roupa e pães em uma mala pequena.  Despedi-me de meu cachorro com um beijo em sua cabecinha pequena e parti para recuperar meu coração.
A entrada da cidade havia sido reformada pelo novo prefeito e a rua principal parecia enfeitada para uma festa. Não sabia por onde começar nem para onde deveria ir.  Pensei que se houvesse uma festa, toda a cidade deveria se reunir ali então seria mais fácil encontrar quem roubou meu coração. Subi pela arquibancada decorada e esperei. As pessoas começaram a chegar e a se sentar e conversar e as ruas começaram a ficar barulhentas demais. Todas as pessoas pareciam tão envelhecidas e não havia nenhuma criança. Será que todas as crianças já haviam crescido? Mas e os adultos? Não tiveram mais filhos?  Aquilo era total perda de tempo.
_ Oi Jane.  – escutei uma voz. Olhei para meu lado e vi um Senhor que imaginei ter um pouco mais de 85 anos e estava segurando uma jaqueta já bem gasta de couro amarela.  Ele era bem peculiar.
_ O Senhor me conhece?
_ Eu forneço  a ração dos seus cachorros. 
_Ah claro! |Como vai, Senhor Hamilton? Desculpe estou muito distraída hoje. Alguém roubou meu coração. Não sei  como recuperá-lo.
_ Ah sim, isso é muito grave. Você não pode viver sem um coração. Restam-lhe poucos dias de vida. Mas tente começar pelos lugares por onde você passou durante os últimos anos.
Era uma ideia genial. Eu acordara na fazenda então lá não estava.  Na pequena loja de rações também não, pois o proprietário estava na arquibancada comigo. Pensei na grande confeitaria. Corri como louca pela cidade e quando cheguei lá,  a filha mais velha de Dona Lurdes me olhava assustada.  Olhei em volta e todas as pessoas continuavam suas rotinas normalmente como se não estivessem me vendo.  Acenei timidamente para a menina Clara e pedi um croissant com manteiga.  Clara sentou-se na minha frente e olhou para meu decote. A costura estava aparente e rapidamente fechei o botão e ela perguntou se eu tinha procurado na antiga gravadora de música. Ela disse para prestar atenção se alguém tinha algum traço parecido com o meu e a saúde e cor que inundavam meu corpo cinco anos atrás. Eu perguntei como ela sabia que eu estava procurando meu coração. E ela só respondeu:
_ Porque eu nunca vi alguém com o peito costurado e os olhos vermelhos e frios como os seus.
Os meus olhos estavam vermelhos? Pedi licença a Clara e fui calmamente ao banheiro. Quando me olhei no espelho percebi que meus olhos estavam cor de sangue. Os castanhos haviam sumido completamente e minha pele estava mais enrugada.  Peguei minha mala, paguei o croissant e andei em direção à única gravadora que conhecia.  Quando vi a fachada, o vento balançou meu vestido e meu cabelo. Uivou muito alto e me senti em um cenário dramático de filme antigo. Minhas lembranças me abraçaram forte como se tivessem me impulsionando a entrar e pareciam estar vivas ao meu redor. A rua de repente se esvaziou abrindo caminho até a porta rotatória e a recepcionista levou um susto quando me viu.
_ Jane, quanto tempo! Você está bem? Quer um pouco de água?
_ Preciso subir ao segundo andar. _ Eu sabia exatamente onde estava indo.
Quando saltei do elevador ele estava abrindo a porta de vidro. Bill estava radiante. Sua pele estava branca como sempre, mas suas maçãs do rosto estavam coradas demonstrando felicidade e saúde, seu corpo estava forte e esbelto e seus passos saltitantes e contagiantes pareciam iluminar o ambiente.  Ele me olhou e sorriu normalmente.  Andei em sua direção, abri sua mochila, peguei meu coração ainda pulsante vermelho e lindo e o recoloquei em meu peito. Imediatamente minha pele voltou ao normal, meu corpo rejuvenesceu, eu senti todos os meus ossos fortes e meu sangue correndo quente pelas minhas veias.  Vi meus olhos castanhos pelo reflexo na porta de vidro que Bill acabara de abrir e senti uma raiva insana.
_ Como você teve coragem de roubar meu coração? Deixou-me sozinha com o peito aberto e sangrando para morrer? _ eu gritava indignada. Bill me olhou calmamente e respondeu:
_Mas Jane,  ... foi você que me deu.


sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Segunda

 - O que você faria se tivesse uma segunda oportunidade de voltar no passado e mudar uma decisão? Se você pudesse mudar aquela decisão da qual você mais se arrepende?
 -  Com certeza eu aceitaria  voltar lá e faria tudo diferente. Eu escolheria a situação que mais me arrependi e faria o contrário do que fiz na época.
 
Resposta errada.
 
Quando eu abri a porta do carro havia uma caixa no banco do passageiro. Era uma caixa branca e simples em formato de retângulo. Não havia nenhum desenho ou logotipo para que eu soubesse o que era ou o que havia ali. Olhei a caixa esperando que Doug a tirasse para que eu pudesse me sentar. Eu não estava muito animada com nossos encontros. Doug parecia o tempo todo preso em uma fantasia inexistente de contos de fadas. Eu deveria sonhar com contos de fadas. Eu sou a mulher nesta história. Mas contos de fadas são românticos, e eu não conhecia muito bem o significado desta palavra. Bom, pelo menos não naquele ano.
 - O que é isso? -Perguntei curiosa.
 -  Passei na padaria no caminho para sua casa e comprei seus doces favoritos. Achei que gostaria, você adora doces.  - Doug respondeu sorridente.
Quando abri a caixa encontrei 4 tipos de doces. Eu gostava de um deles e não era meu favorito.
Eu gostaria de saber quem impôs essa idéia de que para agradar uma mulher é preciso dar flores, pagar um jantar caro, dar perfumes ou jóias. Concordo com as Jóias, mas sou alérgica a perfume, flores e vários tipos de tempero. O que aconteceu com entender e conhecer uma pessoa antes de tentar agradá-la com coisas supérfluas e clichês impostas pela sociedade? 4 anos depois Bill me conquistou com um passeio no meio da floresta às 3 horas da manhã para observar as árvores e as estrelas.
Quando terminei meu relacionamento com Doug,  tinha certeza de que não podia namorar um homem que não estava interessado em quem eu era de verdade, mas sim em moldar uma garota qualquer para ser sua namorada de contos de fadas.
Mas como toda mulher se arrepende um dia de ter dispensado alguém que poderia ter se tornado seu marido, tomei a decisão de voltar ao passado e mudar minha escolha.
Quero deixar bem claro aqui que quando tomamos uma decisão, ela está sempre certa. Fui descobrir isso 6 anos depois, quando trouxe Doug novamente para minha vida e tive a certeza de que jamais poderia ter um relacionamento com ele.
 - Esse restaurante é uma delícia. O sushi está maravilhoso, poderia passar a semana inteira comendo só isso. - Disse eu em voz alta
 - Só isso? Você está muito magra. Precisa comer arroz, feijão, carne. Precisa ganhar uns quilinhos
 - Doug, você sabe que eu não como carne há 11 anos. Estou bem assim.
 - AAAHH mocinha, nem pensar. Agora que você está comigo acabou essa frescura. Vai voltar a comer carne sim senhora, vai comer tudo e engordar pelo menos uns 7 kilos. Tá precisando. Essa história de você quase ter morrido por contrair uma bactéria no mar vai acabar virando passado, para criar resistência você vai ter que pegar mais umas duas vezes. Próximo passeio: praia!
 
Nunca mais me arrependerei na vida e nunca mais desenterrarei o passado.



terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Frágil

Quando um osso se quebra, os vasos sanguíneos em seu interior se rompem, causando sangramento e a formação de um coágulo. O local inflama, mas, em 24 horas, as extremidades dos vasos rompidos são vedadas, estancando quase por completo a hemorragia. A região da fratura fica cheia de pedacinhos do osso quebrado e tecidos mortos, que são removidos pela ação de células chamadas osteoclastos. Elas fagocitam ("comem" e "digerem") esses fragmentos. Desde as primeiras horas após a contusão, também entram em ação os angioblastos, células responsáveis pela formação dos vasos sanguíneos. Elas darão origem a novos vasos dentro do osso e irão reparar outros que se romperam com a fratura. Ao mesmo tempo, a medula óssea começa a se regenerar. 
 
Não imagino um funcionamento de uma máquina mais inteligente que a capacidade do corpo humano de se recuperar.
 
 
 
 
Bill sentou-se ao meu lado na mesa e começou a tirar os rótulos das garrafas de cerveja. Tentei me distrair com a música mas fiquei imaginando o que aconteceria se não atendesse mais suas ligações. Aquele silêncio me perturbava um pouco, Bill não é silencioso e nunca preciso tentar adivinhar seus pensamentos, ele sempre os revela sem rodeios. Tentei dessa vez mas era impossível.
Eu não poderia jamais imaginar que ele se desencantasse ou se perdesse por outros lugares. Seria egoísmo demais querer mantê-lo por perto o tempo todo. Além disso era difícil amar alguém e saber que essa pessoa não te ama com a mesma intensidade, mas talvez nosso relacionamento não fosse adorável só para mim. Talvez aquilo bastasse, cobrisse um buraco negro em nossas vidas. Eu sempre quis mais do que Bill me dava e agora eu tinha medo de perder o pouco que me restava.
Sempre achei o Ser Humano extremamente frágil. Nossos ossos, nossa pele, são facilmente quebráveis ou penetráveis por objetos cortantes, afiados ou armas de fogo. Mas na verdade nossa maior fragilidade está nos sentimentos e não no físico.
Na verdade, não somos assim tão frágeis, nosso corpo se recupera, nossa pele se regenera, nossos ossos se grudam novamente, o corpo humano é uma máquina perfeita e inteligente. Funciona quase que como uma mágica. Mas naquele momento tive medo de esmagar meu coração mais do que levar um tiro ou bater o carro.







 

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Fuga


O Dragão de Komodo é um dos animais mais temidos e perigosos. Trata-se da maior espécie de lagarto conhecida.  No interior de sua mandíbula habitam bactérias letais. Para se alimentar, o Dragão de Komodo ataca sorrateiramente com uma mordida e espera sua vítima morrer pela infecção produzida pelas bactérias. O lagarto segue a vítima durante algum tempo até que a infecção se encarrega de prostrá-la, quando é então calmamente devorada.

Eu me sentia exatamente assim. Como se uma ferida horrível estivesse aberta em meu corpo e eu estivesse apenas aguardando que a infeccção se espalhasse até a minha morte. Sem poder fazer nada para impedir, pois não havia remédios o suficiente ao meu alcance. A ferida havia sido causada por algo bem diferente de uma mordida do lagarto gigante.

As folhas estavam cada vez maiores. A subida estava bem íngreme agora. Apesar de ter ficado um pouco distante dos outros turistas, eu conseguia ouvi-los conversando perfeitamente. Eles falavam em inglês, o que tornava a caminhada mais fácil, pois o assunto me mantinha entretida. O barulho do mar estava cada vez mais distante me dando a impressão de que estávamos cada vez mais perto do centro da ilha. Escutei o grupo rindo alto e fiquei aliviada por perceber que não havia nada assustador onde eles estavam, e que o caminho era mais tranquilo do que imaginei. Cohen caminhava na minha frente afastando as folhas enormes do meu caminho com um cavalheirismo impressionante. Quando ele soube o que Bill havia dito me olhou com um brilho nos olhos que eu nunca havia visto em ninguém. Ele não ficou com pena e muito menos tentou me consolar, ele apenas me perguntou o que eu queria fazer agora e que se não o convidasse ele ficaria triste. Senti como se ele havia esperado aquele momento por um bom tempo. Enquanto eu me esforçava para acompanhar o ritmo de Cohen não conseguia afastar o pensamento de Bill e o motivo pelo qual ele não se interessava por mim como Cohen e Eric. O que eu não mostrei a ele que os outros viam o tempo todo? O que ele não conseguia ver em mim que era tão claro e transparente para os outros? Será que era esse o motivo da minha atração? Ou eu estava apenas sendo pretensiosa de achar que alguém que valorizava tanto a beleza acima de todas as outras características de uma mulher sairia tanto tempo comigo? Senti uma gota de suor brotando atrás de meu joelho e escorrendo pela minha perna e olhei para baixo. Minha micro regata estava banhada em suor e meu menor ainda short estava molhado como se eu tivesse entrado no mar de roupa. Estava tanto calor que quando olhei para as costas de Cohen percebi que ele ia sofrer para tomar banho com aquele bronzeado.

_ Quer protetor solar? Você decidiu não trazer nada, mas a minha mochila tem água, protetor e uma toalha. Posso praticamente salvar sua vida. – soltei uma risada baixa e Cohen olhou para mim com um olhar irônico.

_ Jane, não exagere, você é a fraquinha aqui, eu aguento qualquer parada.

_A gente conversa quando a água do chuveiro atingir suas costas.

Cohen é um dos homens mais atraentes que já conheci, porém ele não transmitia nenhuma emoção. Eu não sabia quando ele estava triste ou feliz. Quando algo na sua vida estava certo ou errado. Eu sabia de seu interesse por mim, pois ele havia voado do meu lado mais de 25 horas para chegar onde estávamos. Quando conhecemos alguém por muito tempo é fácil diferenciar os sentimentos de tristeza ou alegria, interesse ou falta de interesse, tédio ou cansaço, qualquer coisa. Sempre fui muito observadora nesse ponto. Mas em se tratando de Cohen isso era quase impossível. Era. Até aquele momento.

_ Jane, não consigo mais escutar os turistas conversando. Será que eles entraram em alguma trilha paralela? Estamos caminhando em uma reta há mais de 40 minutos e faz 20 minutos que parei de ouvi-los.

_ Não faz isso comigo. Para de brincar com coisa séria, não tem graça. Estamos quase no centro da ilha não escuto mais as ondas e aqui não pega celular. Não podemos estar perdidos.

_Não tenho medo de estar perdido, Jane, é fácil voltar pelo mesmo caminho que viemos se por acaso nos separarmos do grupo. Não é isso. Só estou curioso, não consigo ver outra trilha em lugar nenhum, eles não teriam entrado no meio da mata selvagem.

Quando escutei o primeiro grito tive um impulso incontrolável de correr na direção contrária. Senti Cohen me segurando forte e me impedindo de sair de onde estava e de repente senti sua mão tampando minha boca pra eu não gritar e fazendo sinal para manter silêncio. Meu corpo inteiro tremia e pela primeira vez em 14 dias senti frio. Pensei que poderia ser um animal, mas não existem animais capazes de silenciar um grupo enorme de japoneses em uma ilha próxima a Mauna kea, era mais fácil um vulcão ter entrado em erupção.

 - Se eu quisesse morrer teria ido para a ilha de Komodo na Indonésia e não para o Havaí, por favor, me deixe correr, Cohen.

Quando olhei para os olhos dele senti que correr não adiantaria nada.

 

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013


Carta para Bill

 

_ Eu não fui sincera com você.  _ confessei em um tom de voz impossível de ser ouvido, mas Bill escutou e respondeu.

_Eu sei.

_ Não pude correr o risco de vê-la com você. E se ela aparecesse? Moon quer você de volta e ela não parece uma garota que desiste tão fácil.

_Mas você parece. Jane, nunca a vi insistir, nunca a vi lutar por mim.

_ Não tenho forças para isso.

_ O que acontece?

Eu nunca disse nada, pois eu sabia que não faria diferença. As pessoas que precisam ser conquistadas nunca te proporcionam um relacionamento normal. Quando uma pessoa reage naturalmente a um convite para sair, ela está disponível em todos os sentidos. Quando você precisa insistir ou usar armas de conquistas, essa pessoa não está disponível e você precisa ganha-la de alguma maneira. Não é natural. Se você precisou ganha-la uma vez, precisará sempre.

_ Eu não quero tentar te conquistar, eu não quero lutar por você, isso não existe. Ou as pessoas se gostam naturalmente ou elas não se gostam, ninguém ganha ninguém. Se eu preciso lutar por você significa que você não gosta de mim naturalmente. E isso eu sei, mas não quero ter a certeza, porque se eu tiver a certeza, vou me partir em um milhão de pedaços e nunca mais vou conseguir juntar de volta, pois por mais que eu não diga o tempo todo, por mais que eu sempre vá embora correndo, nunca te ligue para dizer boa noite ou bom dia ou para saber o que você está fazendo, por mais que eu namore outros homens, beije outros homens ou me case com outro homem, a verdade é que eu tive os melhores momentos da minha vida do seu lado, e eu te amei, te amo e vou te amar para sempre.

 

 

 

domingo, 17 de novembro de 2013

Passado

Dizem que para esquecer uma pessoa é preciso escrever sobre ela. Mesmo que eu escreva livros a vida inteira, ainda assim nunca me esquecerei de Bill.

_ Jane! Anda logo! Não quero sair muito tarde e pegar fila na porta. O show começa exatamente a meia-noite e ainda temos uma hora de estrada.
Enquanto Joanna gritava na cozinha eu terminava de passar rímel na frente do espelho exageradamente grande do meu banheiro. O espelho ocupava a parede inteira acima da pia e eu me perguntei se algum dia eu comprasse um apartamento, teria dinheiro para instalar um espelho como aquele. Provavelmente não.
_ Me diga por qual motivo exatamente temos que chegar tão cedo neste lugar Joanna.  - perguntei sabendo que ela me daria uma explicação escalafobética e eu ganharia tempo de escolher os sapatos enquanto a escutava.
Quando chegamos na famosa Casa de Show para assistir uma banda de música sertaneja, me arrependi imediatamente. O único motivo que me impedia de voltar para o carro e dirigir para bem longe eram as longas horas de sermão de Joanna.
As paredes eram todas de madeira imitando um estábulo antigo. Cabeças de gado empalhadas enormes surgiam das paredes perto do palco, como em uma casa de fazenda. As pessoas estavam vestidas bem parecidas umas com as outras, e acabei trombando em vários chapéus de "cowboy", um deles deixou meu olho bem vermelho, e pensei " Ah que ótimo, além de parecer entediada agora as pessoas vão achar que sou maconheira."
Joanna desapareceu em menos de 35 minutos, como sempre, e resolvi andar até o bar para conseguir uma água trombando em várias pessoas, cabelos sendo jogados na minha cara, copos de bebida sendo derramados nos meus sapatos além de cotoveladas na minha orelha. Quando o garçom me convenceu de tomar um suco ao invés de água escutei uma voz feminina me chamando de "loira aguada"
_Você me conhece? - perguntei me preparando para escapar de um soco.
_Não se lembra de mim? Fomos amigas quando você trabalhava no Jardim Rosas.
Quando escutei a palavra Jardim Rosas, imediatamente me coloquei em posição de defesa. Em uma fração de segundos eu consegui vasculhar com dois olhares os quatro cantos da Casa de Show e encontrei uma saída na lateral do palco. Eu não sei como consigo encontrar saídas tão rapidamente e tão convenientemente quando estou correndo algum tipo de perigo por menor que seja, mas não quero pensar muito nisso, somente quero agradecer meus genes por me ajudarem tão rápido.
_Calma Jane, ficou tão pálida de repente. Pode aproveitar o show, estou indo embora mesmo. Não se preocupe. Já passou, não guardo rancor de nada.
Me virei de volta para o balcão, peguei meu suco e comecei a andar na direção da saída jogando meus cabelos loiros e bagunçados nas caras das pessoas que me atrapalhavam, derrubando meu suco nos pés de alguns rapazes inconvenientes no meu caminho e dando cotoveladas nas orelhas de algumas adolescentes escandalosas. Nunca consegui chegar tão rápido em algum lugar. Acho que aprendi como sobreviver nesse tipo de selva. Após alguns goles de suco comecei a me sentir estranhamente cansada, como se tivesse carregado sacos de areia durante 10 horas seguidas. Meu corpo começou a ficar dormente e minhas pernas cambalearam até não conseguir mais me mover. Senti um par de braços enormes segurando minhas costas e meus joelhos e de repente eu estava na posição horizontal, mas não era minha cama, não estava deitada em terra firme, parecia que estava flutuando mas não pela minha própria vontade.

Tentei abri os olhos mas minha cabeça latejou tão intensamente que desisti e resolvi pensar em onde estava. Comecei a tatear em volta e senti um tecido macio parecido com veludo. Não era uma cama, pois não senti os lencóis, apenas o veludo. Ainda estava completamente vestida, mas sabia que não estava em casa.
-Jane?
_ Eric?
Era Eric?? Como ele havia me encontrado? Como eu tinha ido parar no sofá de veludo de Eric?  A última coisa de que me lembro era estar quase desmaiando em uma Casa de Show após ter encontrado Anna Clara.
_ Você desmaiou em um show de música sertaneja e se eu não tivesse te socorrido acho que Anna Clara te roubaria até as calcinhas por vingança. Acho que ela drogou você.
Eu não posso agradecer Eric pois ele me salvara tantas vezes que ficaria a vida inteira dizendo "Obrigada".
Quando consegui me levantar do sofá senti uma brisa estranha, o vento era diferente, quente e úmido com cheiro diferente. Enquanto ele preparava o café eu andei pelo apartamento até uma varanda e quando a abri vi o oceano azul imenso bem diante dos meus olhos. A casa estava no alto de uma colina e abaixo das árvores eu conseguia ver as pedras que íamos pescar quando estávamos juntos. Não consegui avistar areia, apenas as grandes pedras que Eric gostava de passar as madrugadas de verão pescando, pensando e esperando o sol nascer para me levar para o café da manhã. Apesar da familiaridade da situação eu me senti uma estranha naquela casa.
_O que estou fazendo na Praia da Baleia? Isso é sequestro.
_Quero te mostrar uma coisa.
_Já conheço o que os plânctons fazem com a água, você já me mostrou, lembra?
_ Não é isso, Jane. Ainda confia em mim?
Segui o Dragão mais uma vez pela praia e pela primeira vez na vida eu vi algo que mudaria para sempre minha visão do planeta. Somos seres imensamente ignorantes e talvez inocentes e não sabemos da missa a metade.

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Cristalina


PERIGO: situação ou condição de risco com probabilidade de causar lesão física ou dano à sáude das pessoas por ausência de medidas de controle.
Pois bem segundo essa definição fica claro que todo perigo é um risco não controlado.

 

 

As árvores estavam cada vez mais altas e a floresta parecia cada vez mais densa. Eu já conseguia escutar o som de água corrente mas ainda não conseguia distinguir se o som vinha do final da trilha a minha frente ou se corria paralelamente ao nosso caminho. Após duas horas de caminhada eu já não seguia mais Justin. Tinha ficado para trás, mas eu sabia que estava no caminho certo pois a trilha estava intacta mesmo depois de dois anos sem  receber campistas.

As montanhas naquele lado tinham ficado perigosas após um incêndio monstruoso ter devastado a parte mais selvagem das florestas ao redor de nossa cidade. Os animais correram para o lado dos campings onde havia o rio. Ninguém mais explorava aquela área, mas eu tinha visto o lugar mais lindo da minha vida ali e queria voltar. Justin não era um dos homens mais cautelosos que eu conhecia, quando decidi subir a trilha ele foi o primeiro e único a se oferecer. Eu não sabia que ele faria isso mesmo estando mais entediado do que eu. Aceitei pois apesar de colocar nossas vidas em risco, sinto que se meu coração não está acelerado não estou viva, portanto acabo caindo no tédio eterno de sempre.

Quando avistei a água verde e cristalina após afastar as últimas folhas do meu caminho, lembrei imediatamente da paisagem incrível que vi naquele lugar e o motivo pelo qual eu queria voltar. A névoa da manhã cobria a água como um cobertor e os raios de sol que entravam pelo meio das montanhas faziam as partes descobertas da  água brilharem em uma cor que eu nem sabia que existia.

Tirei meu tênis e apesar do frio e temperatura extremamente baixa da água entrei na parte rasa. Quando meus pés tocaram a água fria e verde  meu corpo inteiro congelou, fechei meus olhos esperando me acostumar e quando abri vi Justin acenando e gritando meu nome do outro lado do rio. O que ele estava fazendo tão longe? O rio é enorme não consigo atravessar, além da forte correnteza, é fundo demais e frio demais.  Pelo barulho alto da água correndo e a distância de Justin eu não conseguia ouvi-lo perfeitamente mas ele acenava desesperadamente e abria a boca como um grito que eu não conseguia escutar e muito menos ler seus lábios. Quando ele apontou na minha direção e imitou um animal não precisei olhar para trás, eu sabia o que estava chegando perto. Por um segundo não movi um músculo e um fio de cabelo. Eu nunca me considerei uma donzela em apuros precisando ser salva a todo momento mas estava sempre correndo perigo. Olhei para o outro lado do rio desejando ser uma personagem no filme Jumper. Quando eu conheci Justin,  estacionava o carro numa vaga impossível e ele me olhou da calçada como se estivesse vendo a pior motorista do mundo. Agora ele me olhava como se estivesse vendo a mulher mais azarada do mundo.

A onça andava calmamente na minha direção e não parecia estar caçando, só parecia curiosa. Olhei para o rio e ele parecia extremamente convidativo agora. Imaginei uma piscina de água quente e tirei minha mochila do ombro bem devagar. Nesse momento a onça parou e me olhou, empinou o focinho como se tentasse sentir meu cheiro e fungou.

“Minha hora chegou”  - meu coração acelerou diferente e me senti mais viva do que nunca, talvez por estar tão perto da morte, lamentei nunca ter beijado Justin , lamentei ter uma personalidade tão perdida e procurar por situações exageradas e prometi  para a vida que se ela me salvasse eu nunca mais sentiria tédio novamente.

Foi então que escutei o tiro. O homem de mais de 2 metros de altura, segurando o maior rifle de caça que já vi,  havia atirado na onça. Ele tinha a feição de um psicopata e usava botas muito velhas e sujas. Pensei que estivesse morta e olhei para o outro lado do rio. Justin não estava mais lá.

_ Considere isso um aviso. Agora saia dessas montanhas e não volte mais. – a voz dele era baixa e aguda. Eu soube que ainda estava viva e que aquilo era realidade quando Justin me abraçou e perguntou se eu estava bem.

 

Nunca beijei alguém com tanta intensidade em toda minha vida.

segunda-feira, 27 de maio de 2013

 The Moon


“ Por que nos apaixonamos por uma pessoa mesmo sabendo que ela é errada?

— Essa eu sei a resposta. Porque você espera estar enganado, e sempre que ela faz uma coisa que mostra que ela não é boa, você ignora, e sempre que ela age bem e te surpreende, ela te reconquista. E então você esquece a idéia de que ela não serve para você.”

 
Do filme “ O amor não tira férias”

 
Eu não sabia que o barzinho estaria tão cheio. A aniversariante tinha muitos amigos e todos gostavam daquela situação, mas considerando o frio que fazia na cidade e no número de casacos que todos teriam que vestir para tomar uma cerveja gelada e sentir mais frio ainda, tive esperanças.
_Você conhece a Green de onde?  - um adolescente com olhos vermelhos me perguntou cuspindo para todo lado.
“ De um lugar onde as fadas não são perturbadas por adolescentes brisados que não sabem que o verde da grama que ele pisa todos os dias não é tão verde quanto o lugar distante de tudo que ele já viu na vida mostra.”
- Do trabalho. Preciso conversar com uma amiga. Licença. – respondi e andei para o outro lado do bar fingindo estar procurando alguém e querendo escapulir silenciosamente para minha cama quentinha antes de Green notar minha ausência.
_ Seu nome é Jane?
Escutei uma voz rouca vindo do meu lado esquerdo e soube que passaria frio por pelo menos mais uma hora.
_ Sim. Você me conhece? Desculpe... não lembro de você.
_ Sou o pai da Green, meu nome é Alcide, te reconheci pela foto.
Quando ele me ofereceu o vinho, que eu não aceitei, pois nunca aceito vinho quando converso com um homem que não conheço, o frio aumentou e decidi voltar para a mesa e pedir um refrigerante. Eu poderia dormir mais tarde para conversar com Alcide, afinal de contas, ele era o homem mais velho e interessante do bar.
Quando estávamos quase chegando perto da mesa, o adolescente brisado me olhou com expressão de dúvida nos olhos e quase gritei minha idade para ele , apesar de não ter escutado pergunta alguma  mas algo me dizia que ele não imaginava.
Foi quando a vi.
O cabelo comprido e esvoaçante chegava envolvendo os olhares do bar inteiro. O rosto vermelho por causa do frio e a expressão séria de quem não estava no lugar preferido me tirou a atenção de tudo em volta. Moon não tinha a delicadeza feminina de uma mulher que conquista qualquer tipo de homem, mas era de uma beleza natural, daquelas que podem acampar na praia deserta por meses e acordar encantando até os passarinhos.
Voei meu olhar pelos quatro cantos do bar, permitindo que meu QI acima da média planejasse e calculasse em menos de dois segundos a saída perfeita sem que uma alma viva naquela espelunca sequer lembrasse que estive lá por longas duas horas.
Enquanto o pai da Green me contava suas magníficas histórias de veleiros no Caribe, consegui um resultado da matemática toda. Até que não era tão difícil, considerando o tamanho de Alcide e as quatro vezes por semana de malhação intensa para parecer o Hulk.
_ Está muito frio aqui, Alcide. Eu estou morrendo por um café espresso quentinho com chantilly. O que acha?
_ Green!!! Green!!! Vou sair para um café  com a Jane, pegue as chaves do carro e volte com segurança.
Oh Não! A minha matemática perfeita não calculou o escândalo de Alcide. Moon me olhou com a expressão mais fria que já vi na vida e eu congelei. Imaginei duas cenas em uma fração de segundos e nas duas meu olho estava roxo e meu lábio superior sangrava. Ela sabia exatamente quem eu era e o que tinha feito. Muitas coisas estavam escondidas mas o que mais importava para ela, estava claro e transparente como água. Todas as curiosidades que me assombravam a respeito dela foram desaparecendo com o medo tomando conta. Meu medo não era de encará-la , mas encarar o resultado de uma situação que prejudicaria Bill e seu relacionamento com a garota de seus sonhos.
Enquanto Moon andava na minha direção, todas as perguntas na minha cabeça com relação a essa garota me confundiam. Eu queria ouvir sua voz eu queria entender o que era tão especial além da aparência física mas ao mesmo tempo eu queria correr.
_ OI, Jane.
_(...) _ eu estava muda.
_ Pela sua cara eu imagino que dispenso apresentações.
_(...) _continuei muda
_ Eu queria saber se está tudo bem. Eu quero saber a verdade. O que houve?
Eu queria dizer para ela que sou a última das preocupações de sua vida ou de seu relacionamento, que nunca mais ela vai ouvir meu nome ou me ver em qualquer situação relacionada a Bill, que ele nunca me amou como ele a ama e que se algum dia ela deixá-lo para sempre ele sofrerá  e eu estarei bem longe, pois não sou tão importante para ele a ponto de ficar ali para sempre. Não tenho poder para isso, nunca tive, ele nunca vai me aceitar como namorada, mas a única palavra que saiu de minha boca foi:
_ Nada.

 

 

terça-feira, 5 de março de 2013

Curiosidade


A curiosidade humana é o desejo do ser humano de ver ou conhecer algo até então desconhecido. A curiosidade, porém, quando ultrapassa um limite pré-estabelecido pela ética social, como por exemplo a invasão de espaço alheio, pode ser reprimida. Alguns termos populares podem designar alguém demasiadamente curioso: xereta, intrometido, bicão, intruso.
Não me classifico em nenhum destes termos.


O frio daquela noite estava proporcionando um clima agradável para mim porém um momento de humor negro para Joana.
_ Não entendo até hoje os tecidos de lã que as pessoas usam no pescoço no inverno e insistem em chamar de cachecol. Eles deviam chamar de " FORCA". Isso vai asfixiar alguém algum dia no metrô. Imagina as manchetes dos jornais:
" Mais uma pessoa morta por cachecol preso na porta do metrô", " Asfixiada em um piscar de olhos" Ninguém notou sua morte até que seus olhos escaparam para fora como num filme de terror"...
_ Joana , você conseguiu criar 3 manchetes em um parágrafo? O que há de errado? Já estamos quase chegando. _ eu disse tentando acalmá-la, mas foi inútil.
_Quase chegando? Quero ver as manchetes do jornal quando morrermos nesta estrada macabra. Estou dirigindo há duas horas aqui e não consigo encontrar a saída para essa tal chácara. Bendita hora que resolvi ir nesta festa estranha..
Joana recebera um convite em um grande envelope preto somente com um endereço e uma chave. Entre tantos convites que ela recebe por fim de semana, este me chamou atenção e não precisei muito para convencê-la a me levar. Eu disse que seria uma boa ocasião para ela usar o novo vestido estampado que estava louco para ser exibido!
Assim que abri o envelope e a chave escorregou no meu colo percebi que não era algo simples, aquele tipo de convite com textura imitando tecido e impressão em relevo americano era bem claro para mim:
_Joana, esta festa é em uma mansão.
_ Eu só quero ver se chegarmos lá e encontrarmos  um churrascão na laje.
O churrascão na laje ficou pairando no ar quando Joana parou o carro em frente ao enorme portão entre os muros de pedra com aparência de castelo abandonado. Um tanto cafona diga-se de passagem. Após Joana mostrar a chave na câmera, o portão se abriu automaticamente e entramos na pequena estrada de terra até a porta da mansão.
_ Nossa , Jane!! Você tinha toda razão! É uma mansão e é maravilhosa! Ai agora sim, fiquei animada!
Meu primeiro pensamento foi inevitável. Estamos em 2013. Quem são essas pessoas? A estrada macabra nos levou para o ano de 1513. Que legal, máquinas do tempo realmente existem.. bom saber!
Após alguns minutos de vinho, Joana encontrou alguns conhecidos e esqueceu completamente minha presença. Bom... nós não nascemos e morremos acompanhados, certo? Com exceção de gêmeos siameses, que nascem acompanhados, nós fazemos isso sozinhos. Pois então, podemos fazer qualquer coisa sozinhos.
Enquanto eu caminhava calmamente pelos corredores da exagerada mansão, o barulho da festa ia diminuindo. Os corredores começaram a parecer menores e com algumas portas trancadas. A decoração das portas eram todas com inspiração do período Barroco. Esculturas perfeitas de anjos que pareciam sair de dentro das paredes em sua direção querendo dizer algo. Minha curiosidade me levava por mais corredores até que encontrei uma porta aberta. Não seria eu se não entrasse.
_ O que está fazendo aqui?
Levei o maior susto da minha vida.
_Desculpe, é uma biblioteca, certo? E estava com a porta aberta, eu tenho a chave para a festa.. não estou invadindo. _ tentei me defender um pouco atrapalhada
_ A festa é no salão principal, deve ter andado muito para chegar até aqui. O que houve? Ficou entediada?
Em uma das prateleiras pensei ter visto o olho de um dragão na capa de um livro. Me aproximei da prateleira e retirei o livro de cima do monte desorganizado.
_ Ah que ótimo agora além de invasora você decide ler um pouco?
_ Este livro tem uma característica bem diferente das demais obras de Stephen King.
_Sim, ele escreveu pensando em criar algo especial para sua pequena filha.
_ Parece que ele está contando uma lenda em voz alta.
_Sim, é uma fábula.
_ Gosta de livros de terror?
_ Não, mas você parece uma mulher meio macabra, nem vou perguntar.
_ Pois é, minha "macabrice" não combina com a época. Eu sou do futuro.
_Como?
_ Vim do ano de 2013, por uma estrada escura que cruza uma floresta.
_E posso perguntar em que ano você acha que está?
_ Pela decoração da casa, eu diria, 1513.
_ Ah sim..período Barroco, você gostou dos anjos?
_ Não.
_E se fossem demônios? Ficaria com medo?
_Não tenho medo de nada. Você deveria ter percebido isso quando me viu entrando na biblioteca.
_ Eu não durmo. Não me importo com a insônia, pelo menos tenho tempo para ler. Não me importo com a festa também, acho que as pessoas tem diferentes interesses, mas todos eles ali naquele salão se resumem a uma coisa...
_...dinheiro?
_ Sim.
_Acredita em demônios?
_Acredito que as pessoas possam materializar qualquer coisa que elas desejam. O cérebro é poderoso o suficiente para permitir isso. Nós o usamos o tempo todo mas não temos o poder para controlá-lo como  queremos. O que existe na Terra não é somente o que você enxerga com seus olhos castanhos e humanos. Pode ver muito além se quiser.
_Por quê alguém iria desejar ver um demônio?
_ Não sei. Você deveria perguntar isso a si mesma, Jane, afinal de contas, você não só está me vendo como está conversando comigo...





 



domingo, 20 de janeiro de 2013

A Balsa


Abri os olhos com dificuldade. Continuava sonhando com o mesmo tigre mas desta vez foi um sonho tranquilo. Não senti nenhum medo. As paredes cobertas por formigas eram bem piores.
 
Apesar da visão embaçada comecei a enxergar uma forma triangular acinzentada um pouco distante de mim, mas perto o suficiente para me dizer que aquilo não pertencia ao meu quarto. Apertei os olhos com força e a imagem começou a se tornar mais clara... era a parte da frente de um scarpin feminino cinza. A mulher elegantemente vestida estava lendo um jornal em uma língua que não era Português nem Inglês. Olhei em volta no pequeno cubículo e vi que minha irmã dormia tranquila na minha frente com os pés apoiados em uma mala de viagem quase do meu tamanho. Senti o cubículo inteiro vibrando e balançando e percebi que estava em um veículo em movimento. Olhei pelo vidro da janela e vi uma das paisagens mais bonitas que já havia visto na minha vida. As montanhas passavam muito rápido pela janela e só deixavam um borrão verde que quando sumia de meus olhos davam espaço para enxergar o azul de um mar imenso. Do outro lado eu só via a porta do cubículo e um corredor. Quando entrei no corredor, olhei pela janela do outro lado do trem e vi mais montanhas. Sim, estava em um trem em movimento. Andei pelos corredores do trem muito devagar e um tanto desequilibrada observando  algumas pessoas que viajavam em pé e outras dormindo nos cubículos. Tive que passar para outro vagão para encontrar o banheiro e quando voltei resolvi viajar um pouco em pé. As paisagens eram todas iguais,  muitas montanhas, muito mar e poucas cidades. Viajei ali observando tudo por  duas horas.
Comecei a pensar em outra situação na minha vida, a mudança de cidade que acabara de fazer e na facilidade da minha adaptação. Era fácil abandonar e era fácil recomeçar. Comecei a gostar da idéia e de como minha personalidade se encaixava perfeitamente na situação. Eu entendi que essa característica era um ponto extremamente positivo na minha vida e que eu poderia me mudar quando quisesse. Poderia morar onde quisesse e quando quisesse.
Quando sentei no banco do cubículo a mulher elegante não estava mais ali. provavelmente desceu na última estação que paramos. Estávamos sozinhas novamente, minha irmã respirava como se estivesse dormindo profundamente e não quis acordá-la apesar de o trem ter parado bruscamente onde só havia mar.
Olhei por todos os lados procurando uma estação e não encontrei nada.
O trem começou a se mover em uma curva e eu comecei a ficar apavorada. Não entendi como ele podia se mover na direção daquele mar azul.
Quando estava quase levantando para voltar ao vagão do banheiro vi as janelas de vidro serem cobertas por uma cortina de aço cinza e escura. O trem começou a escurecer aos poucos e as janelas foram cobertas com aquela cortina de aço uma por uma. O trem continuava em movimento e acordei minha irmã.
 
_ O que é isso?
Minha irmã olhou em volta e imediatamente levantou com uma expressão de felicidade no rosto:
_ Vamos!! Vamos subir para ver o mar, estamos entrando no porão de uma ferry.
_ Porão??? Como assim??? Ferry?? Balsa???
Quando eu desci do trem e olhei em volta, pude perceber que aquele lugar era realmente um porão, era inacreditável, estávamos em um porão gigante de aço "com trem e tudo"!
Minha irmã desapareceu atrás de uma porta e eu corri encontrando uma escada. Subi as escadas apavorada e quando abri a porta estávamos em uma enorme balsa em movimento. O azul do mar era algo que eu nunca havia visto na vida. O caminho a ser percorrido por água era muito curto e conseguíamos ver a cidade nos esperando para continuar a viagem de trem. Foi algo indescritível e se minha irmã tivesse me contado que teríamos que passar por essa parte da viagem eu teria batido o pé e dito que sentiria muito medo e não iria. Foi muito bom ter sido surpreendida e superado um medo por não ter outra escolha.
Após mais duas horas de viagem chegamos na nossa estação e quando eu desci, avistei a Taormina que esperava. Era perfeita, exatamente como nas fotos. Aquele mar imenso de um azul intenso indescritível, as tradicionais casas brancas  espalhadas pelas montanhas, a praia de pedras, as construções antigas.
Quando chegamos no quarto do hotel e vi o vulcão pela janela um grito escapou de minha garganta:
_ Estamos no sul da Itália!!!
 
 
 
 
 
 
 
 



segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Crenças


 
Os Cérebros podem ser extremamente complexos. O cérebro humano contém cerca de 86 bilhões de neurônios, ligados por mais de 10.000 conexões sinápticas cada.
Apesar do  rápido avanço  científico, muito do funcionamento do cérebro continua um mistério. As operações individuais de neurônios e sinapses hoje são compreendidas com detalhamento considerável, mas o modo como eles cooperam em grupos de milhares ou milhões tem sido difícil de decifrar.

 
Apesar da chuva a sala estava cheia. Cheguei no prédio vinte minutos antes do início da formação do Círculo. O barulho da chuva em contraste com o silêncio absoluto das pessoas era maravilhoso. Passei o dia inteiro ouvindo conversas, gargalhadas, choros, reclamações, chuva, trovões e ventanias. Eu estava aliviada.
Entramos na sala onde se realizaria a cerimônia em silêncio, eu não conhecia ninguém mas as pessoas se olhavam com uma cumplicidade familiar, eu podia ler a seguinte frase nos seus olhos:
" Eu não conheço você nem os motivos pelos quais você está aqui, mas entendo perfeitamente."
Nos colocamos no centro da sala e nos formamos em um círculo perfeito. Eu me posicionei na lateral do círculo entre a porta de saída da sala e a janela, que era imensa. Eu podia ver tudo lá fora, a rua, as pessoas correndo, os carros, os comércios, mas o único barulho que ouvia era o da chuva. No centro do círculo já estavam colocadas as flores, plantas, sementes, objetos pessoais de cada um e um tambor.
A líder do Círculo começou a dar as instruções em uma voz suave e bem baixa e começamos a nos concentrar. Eu sabia que jamais poderia chegar a um estado de concentração muito profundo mas estar ali era essencial para minha busca.
Quando ela começou a tocar o tambor consegui imaginar a floresta e os animais, que era muito fácil para mim, mas era apenas imaginação. Talvez meu corpo tenha relaxado o suficiente para adquirir toda aquela espiritualidade e energia, mas era impossível mergulhar na cachoeira em minha imaginação e sentir a água gelada invadindo meu corpo em minha realidade.
Quando eu vi o tigre entrando pela porta de saída da sala, naquele prédio de concreto no meio da cidade de São Paulo, pensei que tivesse caído em um sono profundo. Eu continuava vendo todas as pessoas na sala, todos os objetos no centro do círculo e escutava o tambor perfeitamente, tudo estava igual e eu me sentia acordada, exceto pelo imenso tigre andando em minha direção.  Por que eu não estava na floresta? Por que um tigre tão assustador? Não podia ser um coelho? Ou mesmo um avestruz? O que aquele tigre estava fazendo no meio da sala? Analisando o fato de que ninguém estava levantando ou gritando, era óbvio que somente eu podia vê-lo. O imenso animal parou serenamente do meu lado e olhou para a janela por um longo tempo e depois olhou para mim de novo. Eu entendi que deveria olhar pela janela também.
Foi então que meu corpo começou a tremer de frio por causa da água gelada.
 
 
Eu fui criada em uma família católica. Fiz primeira comunhão, estudei em colégio de freiras, assisti missas, aprendi a rezar o Terço e li parte do Novo Testamento para as aulas de Religião e Catecismo, que para quem não sabe, é o ensino oral da religião Cristã, dos seus mistérios, princípios e código moral.
Eu sempre acreditei que existe algo no mundo além do que os olhos humanos podem ver. Comecei a buscar algo diferente nos livros mas descobri que ler não ajuda a entender as crenças, religiões, costumes, chame como quiser. Eu deveria praticar o que estava lendo. Cheguei muito longe na minha busca. Estive nessa viagem pelos últimos 10 anos e ainda não terminei. Vi, pratiquei e estudei muita coisa interessante. Porém vi também que  muitos são mercenários, muitos ostentam uma riqueza inalcançável e pouco realizam para ajudar, muitos usam a perspicácia para ganhar bens materiais e as pessoas ainda são extremamente inocentes quando estão se sentindo perdidas.
Porém, acreditei no inacreditável. Não sei explicar como, mas em meio a tudo isso, consegui entender o que faz as pessoas serem tão inocentes. Na verdade elas não são. Existe algo de milagroso que muda nossa energia, que muda nossa vida e que contribui para uma esperança e positivismo em um mundo de tragédias.
Tenho uma teoria científica, é claro, não sou tão religiosa assim.
Acredito no poder do cérebro humano. Acho que não temos consciência suficiente para usar este poder que nos foi dado. As pessoas acreditam que algo pode mudar a vida delas, se aquilo se torna realidade para elas foi o cérebro que tornou isso possível. Se uma pessoa, um cérebro pensante,  consegue tornar realidade o que ela acredita, imagina o que muitas pessoas com o mesmo pensamento conseguem fazer juntas.


 

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

O Dragão


Eu aprendi a me desligar do planeta mesmo estando totalmente consciente. Quando uma situação me entendia, ou me deixa muito nervosa, ou mesmo uma pessoa com um assunto que não me interessa começa a falar, eu me distraio e consigo ignorar totalmente o que acontece em volta ficando desligada. Eu consigo ignorar tão bem que fico completamente surda. Na verdade não é tão difícil. Todas as pessoas possuem essa habilidade, elas só não sabem desenvolvê-la.


A areia estava tão quente que decidi caminhar perto da água. O mar estava muito forte e as ondas eram altas dando a sensação de que a praia seria inundada e seríamos carregados para a floresta. Mas eu não estava com medo. Era apenas uma sensação estranha e eu sabia que isso era impossível. Na verdade, se acontecesse, somente eu morreria.
Estávamos caminhando em direção ao leste e tudo que eu conseguia ver era um pequeno morro de pedras quando a areia terminava e começava um verde forte infinito que imaginei ser uma montanha. Estava tão longe que eu não conseguia ver as árvores, somente um verde forte. Eu conhecia a pequena duna que estávamos quase alcançando após quarenta minutos de caminhada entre o mar e a floresta, mas o Dragão me disse que ali não estava a maior beleza do local e eu acreditei nele. Havia algo diferente no final da caminhada e eu precisava ver.
Eu achava que a diferença não era na floresta ou na praia, mas sim no que o Dragão queria me ensinar. Ele era diferente. As florestas são todas iguais, conheço desde criança. Eu vi. 
Conforme chegávamos mais perto da montanha, as árvores começavam a ficar mais visíveis e claras. Era de um verde-musgo bem forte e eu podia ver os formatos das folhas e das plantas e as pedras eram muito altas tornando a passagem impossível. Como sairíamos dali? Eu teria que voltar caminhando por toda aquela praia? Eu estava exausta e estava começando a escurecer, pensei que voltaríamos pelo rio.
_Não se preocupe com a volta, pegaremos o barco. Eu posso remar.
_Não tem passagem. Onde está o rio? - perguntei desesperada.
Quando ele se virou para segurar minha mão percebi pelo seu olhar que o tom de desespero na minha voz o tinha ofendido, afinal de contas, eu deveria confiar nele. Estendi minha mão mais uma vez cega de curiosidade e me deixei levar por entre as árvores.
Continuei seguindo o Dragão dentro da floresta e vi a noite cair em um piscar de olhos. Quando chegamos perto do rio ele me lançou um olhar irônico e perguntou se eu ainda estava com medo.
_Não estou com medo. O que vamos fazer agora?
_Caminhe pelo rio.
_O que?
_ Caminhe pelo rio.
Ele quer que eu entre na água? Apesar do rio ser muito raso, eu tive medo de encontrar uma cobra, pois era impossível ver onde eu estava pisando naquela escuridão. Foi então que meus pés na água fizeram uma explosão de cores parecida com um show de luzes de uma rave.




segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Estradas

Quando eu era criança meus pais viajavam muito. Sempre fiquei enjoada. Aquelas curvas, a estrada sem fim, a sensação de que o caminho parecia o mesmo por horas e horas e o destino não chegava nunca. A estrada era minha maior inimiga. Eu cheirava limão, comia biscoitos japoneses sem gosto, biscoitos de água e sal, pão francês, nada adiantava. Carro, ônibus, estrada reta, estrada com curvas, caminhos curtos, caminhos longos, nada me salvava daquela sensação sofrida. Mas quando finalmente a estrada terminava e o destino me encontrava, era como se eu estivesse acordando de um pesadelo. Aquele sentimento de alívio quando você acorda e pensa: " Foi apenas um sonho ruim" era exatamente como eu me sentia. Porém, eu nunca desfiz as malas. Mesmo quando a viagem era longa, eu mantinha minha mala impecavelmente arrumada. Minhas irmãs tiravam todas as roupas das malas e penduravam nos novos "cabides temporários". É claro que elas adoravam essa minha mania estranha pois sempre sobrava mais espaço para elas pendurarem todos os vestidos, calças , blusas, um infinito de roupas. Eu sabia que a estrada me esperava e que mais cedo ou mais tarde eu sofreria novamente. Então eu deixava a mala pronta. Conforme fui crescendo, comecei a escolher as viagens. Comecei a diminuí-las também. Eu não tinha mais obrigação de ir a lugar nenhum, eu podia simplesmente ficar em casa. Era maravilhoso, era libertador. Os feriados chegavam e eu respondia com o maior prazer:
" Não vou viajar, quero apenas ficar em casa".
Até que um dia...

_Jane, preciso falar com você. Sei que você vai dizer não, mas preciso tentar.
Joanna tinha um poder de persuasão incrível que eu nunca tinha visto em toda minha vida. Anos mais tarde eu conheceria alguém pior...
_ O que você precisa? Dinheiro? Um carro novo? Jóias? Um namorado? Não tenho nada disso!
_ Quero que você viaje comigo por oito dias no Carnaval. Por favor! Vai ser maravilhoso!
_ Não tenho palavras para descrever como odeio estradas. Não vou. Odeio Carnaval também, e odeio praias durante o período de Carnaval. As pessoas não sabem se divertir. Sempre acontece algo ruim. Você está louca! As praias ficam lotadas , e as estradas?? É o caminho para o inferno, que a propósito, está coberto de boas intenções.
_ Jane, é uma praia ecológica, deserta. Só existe uma pousada, dois acampamentos e vamos ficar em uma casa de pescador. O acesso é por um rio de água doce.
Pensei na falta de tecnologia do lugar. Pensei no rio de água doce. Não sei quando nem como ela me ganhou, mas a frase que viria a seguir me deixou completamente inquieta:
_Ninguém conhece este lugar. É escondido.. confie em mim.. é o paraíso.
Quando terminei de arrumar a mala me dei conta de que estava completamente louca. Mas sempre há algo muito atraente em um lugar que não tem sinal de celular, internet, rádio, televisão, prédios e infraestrutura.
Levamos mais de cinco horas para chegar. Eu desci do carro e só havia mata selvagem em volta da pequena casa. Só havia um cômodo e um banheiro, porém a casa era nova em folha. Ninguém se hospedara lá ainda, éramos as primeiras.
Segui a única estrada de terra da Vila , rodeada de mata alta e selvagem por uns 10 minutos. Finalmente encontrei areia, desci um pequeno degrau, no meio das árvores, que estava quase fechado por dois galhos imensos cobertos por folhas verdes e perfumadas.  
O que vi depois me fez desarrumar as malas.