segunda-feira, 27 de maio de 2013

 The Moon


“ Por que nos apaixonamos por uma pessoa mesmo sabendo que ela é errada?

— Essa eu sei a resposta. Porque você espera estar enganado, e sempre que ela faz uma coisa que mostra que ela não é boa, você ignora, e sempre que ela age bem e te surpreende, ela te reconquista. E então você esquece a idéia de que ela não serve para você.”

 
Do filme “ O amor não tira férias”

 
Eu não sabia que o barzinho estaria tão cheio. A aniversariante tinha muitos amigos e todos gostavam daquela situação, mas considerando o frio que fazia na cidade e no número de casacos que todos teriam que vestir para tomar uma cerveja gelada e sentir mais frio ainda, tive esperanças.
_Você conhece a Green de onde?  - um adolescente com olhos vermelhos me perguntou cuspindo para todo lado.
“ De um lugar onde as fadas não são perturbadas por adolescentes brisados que não sabem que o verde da grama que ele pisa todos os dias não é tão verde quanto o lugar distante de tudo que ele já viu na vida mostra.”
- Do trabalho. Preciso conversar com uma amiga. Licença. – respondi e andei para o outro lado do bar fingindo estar procurando alguém e querendo escapulir silenciosamente para minha cama quentinha antes de Green notar minha ausência.
_ Seu nome é Jane?
Escutei uma voz rouca vindo do meu lado esquerdo e soube que passaria frio por pelo menos mais uma hora.
_ Sim. Você me conhece? Desculpe... não lembro de você.
_ Sou o pai da Green, meu nome é Alcide, te reconheci pela foto.
Quando ele me ofereceu o vinho, que eu não aceitei, pois nunca aceito vinho quando converso com um homem que não conheço, o frio aumentou e decidi voltar para a mesa e pedir um refrigerante. Eu poderia dormir mais tarde para conversar com Alcide, afinal de contas, ele era o homem mais velho e interessante do bar.
Quando estávamos quase chegando perto da mesa, o adolescente brisado me olhou com expressão de dúvida nos olhos e quase gritei minha idade para ele , apesar de não ter escutado pergunta alguma  mas algo me dizia que ele não imaginava.
Foi quando a vi.
O cabelo comprido e esvoaçante chegava envolvendo os olhares do bar inteiro. O rosto vermelho por causa do frio e a expressão séria de quem não estava no lugar preferido me tirou a atenção de tudo em volta. Moon não tinha a delicadeza feminina de uma mulher que conquista qualquer tipo de homem, mas era de uma beleza natural, daquelas que podem acampar na praia deserta por meses e acordar encantando até os passarinhos.
Voei meu olhar pelos quatro cantos do bar, permitindo que meu QI acima da média planejasse e calculasse em menos de dois segundos a saída perfeita sem que uma alma viva naquela espelunca sequer lembrasse que estive lá por longas duas horas.
Enquanto o pai da Green me contava suas magníficas histórias de veleiros no Caribe, consegui um resultado da matemática toda. Até que não era tão difícil, considerando o tamanho de Alcide e as quatro vezes por semana de malhação intensa para parecer o Hulk.
_ Está muito frio aqui, Alcide. Eu estou morrendo por um café espresso quentinho com chantilly. O que acha?
_ Green!!! Green!!! Vou sair para um café  com a Jane, pegue as chaves do carro e volte com segurança.
Oh Não! A minha matemática perfeita não calculou o escândalo de Alcide. Moon me olhou com a expressão mais fria que já vi na vida e eu congelei. Imaginei duas cenas em uma fração de segundos e nas duas meu olho estava roxo e meu lábio superior sangrava. Ela sabia exatamente quem eu era e o que tinha feito. Muitas coisas estavam escondidas mas o que mais importava para ela, estava claro e transparente como água. Todas as curiosidades que me assombravam a respeito dela foram desaparecendo com o medo tomando conta. Meu medo não era de encará-la , mas encarar o resultado de uma situação que prejudicaria Bill e seu relacionamento com a garota de seus sonhos.
Enquanto Moon andava na minha direção, todas as perguntas na minha cabeça com relação a essa garota me confundiam. Eu queria ouvir sua voz eu queria entender o que era tão especial além da aparência física mas ao mesmo tempo eu queria correr.
_ OI, Jane.
_(...) _ eu estava muda.
_ Pela sua cara eu imagino que dispenso apresentações.
_(...) _continuei muda
_ Eu queria saber se está tudo bem. Eu quero saber a verdade. O que houve?
Eu queria dizer para ela que sou a última das preocupações de sua vida ou de seu relacionamento, que nunca mais ela vai ouvir meu nome ou me ver em qualquer situação relacionada a Bill, que ele nunca me amou como ele a ama e que se algum dia ela deixá-lo para sempre ele sofrerá  e eu estarei bem longe, pois não sou tão importante para ele a ponto de ficar ali para sempre. Não tenho poder para isso, nunca tive, ele nunca vai me aceitar como namorada, mas a única palavra que saiu de minha boca foi:
_ Nada.

 

 

terça-feira, 5 de março de 2013

Curiosidade


A curiosidade humana é o desejo do ser humano de ver ou conhecer algo até então desconhecido. A curiosidade, porém, quando ultrapassa um limite pré-estabelecido pela ética social, como por exemplo a invasão de espaço alheio, pode ser reprimida. Alguns termos populares podem designar alguém demasiadamente curioso: xereta, intrometido, bicão, intruso.
Não me classifico em nenhum destes termos.


O frio daquela noite estava proporcionando um clima agradável para mim porém um momento de humor negro para Joana.
_ Não entendo até hoje os tecidos de lã que as pessoas usam no pescoço no inverno e insistem em chamar de cachecol. Eles deviam chamar de " FORCA". Isso vai asfixiar alguém algum dia no metrô. Imagina as manchetes dos jornais:
" Mais uma pessoa morta por cachecol preso na porta do metrô", " Asfixiada em um piscar de olhos" Ninguém notou sua morte até que seus olhos escaparam para fora como num filme de terror"...
_ Joana , você conseguiu criar 3 manchetes em um parágrafo? O que há de errado? Já estamos quase chegando. _ eu disse tentando acalmá-la, mas foi inútil.
_Quase chegando? Quero ver as manchetes do jornal quando morrermos nesta estrada macabra. Estou dirigindo há duas horas aqui e não consigo encontrar a saída para essa tal chácara. Bendita hora que resolvi ir nesta festa estranha..
Joana recebera um convite em um grande envelope preto somente com um endereço e uma chave. Entre tantos convites que ela recebe por fim de semana, este me chamou atenção e não precisei muito para convencê-la a me levar. Eu disse que seria uma boa ocasião para ela usar o novo vestido estampado que estava louco para ser exibido!
Assim que abri o envelope e a chave escorregou no meu colo percebi que não era algo simples, aquele tipo de convite com textura imitando tecido e impressão em relevo americano era bem claro para mim:
_Joana, esta festa é em uma mansão.
_ Eu só quero ver se chegarmos lá e encontrarmos  um churrascão na laje.
O churrascão na laje ficou pairando no ar quando Joana parou o carro em frente ao enorme portão entre os muros de pedra com aparência de castelo abandonado. Um tanto cafona diga-se de passagem. Após Joana mostrar a chave na câmera, o portão se abriu automaticamente e entramos na pequena estrada de terra até a porta da mansão.
_ Nossa , Jane!! Você tinha toda razão! É uma mansão e é maravilhosa! Ai agora sim, fiquei animada!
Meu primeiro pensamento foi inevitável. Estamos em 2013. Quem são essas pessoas? A estrada macabra nos levou para o ano de 1513. Que legal, máquinas do tempo realmente existem.. bom saber!
Após alguns minutos de vinho, Joana encontrou alguns conhecidos e esqueceu completamente minha presença. Bom... nós não nascemos e morremos acompanhados, certo? Com exceção de gêmeos siameses, que nascem acompanhados, nós fazemos isso sozinhos. Pois então, podemos fazer qualquer coisa sozinhos.
Enquanto eu caminhava calmamente pelos corredores da exagerada mansão, o barulho da festa ia diminuindo. Os corredores começaram a parecer menores e com algumas portas trancadas. A decoração das portas eram todas com inspiração do período Barroco. Esculturas perfeitas de anjos que pareciam sair de dentro das paredes em sua direção querendo dizer algo. Minha curiosidade me levava por mais corredores até que encontrei uma porta aberta. Não seria eu se não entrasse.
_ O que está fazendo aqui?
Levei o maior susto da minha vida.
_Desculpe, é uma biblioteca, certo? E estava com a porta aberta, eu tenho a chave para a festa.. não estou invadindo. _ tentei me defender um pouco atrapalhada
_ A festa é no salão principal, deve ter andado muito para chegar até aqui. O que houve? Ficou entediada?
Em uma das prateleiras pensei ter visto o olho de um dragão na capa de um livro. Me aproximei da prateleira e retirei o livro de cima do monte desorganizado.
_ Ah que ótimo agora além de invasora você decide ler um pouco?
_ Este livro tem uma característica bem diferente das demais obras de Stephen King.
_Sim, ele escreveu pensando em criar algo especial para sua pequena filha.
_ Parece que ele está contando uma lenda em voz alta.
_Sim, é uma fábula.
_ Gosta de livros de terror?
_ Não, mas você parece uma mulher meio macabra, nem vou perguntar.
_ Pois é, minha "macabrice" não combina com a época. Eu sou do futuro.
_Como?
_ Vim do ano de 2013, por uma estrada escura que cruza uma floresta.
_E posso perguntar em que ano você acha que está?
_ Pela decoração da casa, eu diria, 1513.
_ Ah sim..período Barroco, você gostou dos anjos?
_ Não.
_E se fossem demônios? Ficaria com medo?
_Não tenho medo de nada. Você deveria ter percebido isso quando me viu entrando na biblioteca.
_ Eu não durmo. Não me importo com a insônia, pelo menos tenho tempo para ler. Não me importo com a festa também, acho que as pessoas tem diferentes interesses, mas todos eles ali naquele salão se resumem a uma coisa...
_...dinheiro?
_ Sim.
_Acredita em demônios?
_Acredito que as pessoas possam materializar qualquer coisa que elas desejam. O cérebro é poderoso o suficiente para permitir isso. Nós o usamos o tempo todo mas não temos o poder para controlá-lo como  queremos. O que existe na Terra não é somente o que você enxerga com seus olhos castanhos e humanos. Pode ver muito além se quiser.
_Por quê alguém iria desejar ver um demônio?
_ Não sei. Você deveria perguntar isso a si mesma, Jane, afinal de contas, você não só está me vendo como está conversando comigo...





 



domingo, 20 de janeiro de 2013

A Balsa


Abri os olhos com dificuldade. Continuava sonhando com o mesmo tigre mas desta vez foi um sonho tranquilo. Não senti nenhum medo. As paredes cobertas por formigas eram bem piores.
 
Apesar da visão embaçada comecei a enxergar uma forma triangular acinzentada um pouco distante de mim, mas perto o suficiente para me dizer que aquilo não pertencia ao meu quarto. Apertei os olhos com força e a imagem começou a se tornar mais clara... era a parte da frente de um scarpin feminino cinza. A mulher elegantemente vestida estava lendo um jornal em uma língua que não era Português nem Inglês. Olhei em volta no pequeno cubículo e vi que minha irmã dormia tranquila na minha frente com os pés apoiados em uma mala de viagem quase do meu tamanho. Senti o cubículo inteiro vibrando e balançando e percebi que estava em um veículo em movimento. Olhei pelo vidro da janela e vi uma das paisagens mais bonitas que já havia visto na minha vida. As montanhas passavam muito rápido pela janela e só deixavam um borrão verde que quando sumia de meus olhos davam espaço para enxergar o azul de um mar imenso. Do outro lado eu só via a porta do cubículo e um corredor. Quando entrei no corredor, olhei pela janela do outro lado do trem e vi mais montanhas. Sim, estava em um trem em movimento. Andei pelos corredores do trem muito devagar e um tanto desequilibrada observando  algumas pessoas que viajavam em pé e outras dormindo nos cubículos. Tive que passar para outro vagão para encontrar o banheiro e quando voltei resolvi viajar um pouco em pé. As paisagens eram todas iguais,  muitas montanhas, muito mar e poucas cidades. Viajei ali observando tudo por  duas horas.
Comecei a pensar em outra situação na minha vida, a mudança de cidade que acabara de fazer e na facilidade da minha adaptação. Era fácil abandonar e era fácil recomeçar. Comecei a gostar da idéia e de como minha personalidade se encaixava perfeitamente na situação. Eu entendi que essa característica era um ponto extremamente positivo na minha vida e que eu poderia me mudar quando quisesse. Poderia morar onde quisesse e quando quisesse.
Quando sentei no banco do cubículo a mulher elegante não estava mais ali. provavelmente desceu na última estação que paramos. Estávamos sozinhas novamente, minha irmã respirava como se estivesse dormindo profundamente e não quis acordá-la apesar de o trem ter parado bruscamente onde só havia mar.
Olhei por todos os lados procurando uma estação e não encontrei nada.
O trem começou a se mover em uma curva e eu comecei a ficar apavorada. Não entendi como ele podia se mover na direção daquele mar azul.
Quando estava quase levantando para voltar ao vagão do banheiro vi as janelas de vidro serem cobertas por uma cortina de aço cinza e escura. O trem começou a escurecer aos poucos e as janelas foram cobertas com aquela cortina de aço uma por uma. O trem continuava em movimento e acordei minha irmã.
 
_ O que é isso?
Minha irmã olhou em volta e imediatamente levantou com uma expressão de felicidade no rosto:
_ Vamos!! Vamos subir para ver o mar, estamos entrando no porão de uma ferry.
_ Porão??? Como assim??? Ferry?? Balsa???
Quando eu desci do trem e olhei em volta, pude perceber que aquele lugar era realmente um porão, era inacreditável, estávamos em um porão gigante de aço "com trem e tudo"!
Minha irmã desapareceu atrás de uma porta e eu corri encontrando uma escada. Subi as escadas apavorada e quando abri a porta estávamos em uma enorme balsa em movimento. O azul do mar era algo que eu nunca havia visto na vida. O caminho a ser percorrido por água era muito curto e conseguíamos ver a cidade nos esperando para continuar a viagem de trem. Foi algo indescritível e se minha irmã tivesse me contado que teríamos que passar por essa parte da viagem eu teria batido o pé e dito que sentiria muito medo e não iria. Foi muito bom ter sido surpreendida e superado um medo por não ter outra escolha.
Após mais duas horas de viagem chegamos na nossa estação e quando eu desci, avistei a Taormina que esperava. Era perfeita, exatamente como nas fotos. Aquele mar imenso de um azul intenso indescritível, as tradicionais casas brancas  espalhadas pelas montanhas, a praia de pedras, as construções antigas.
Quando chegamos no quarto do hotel e vi o vulcão pela janela um grito escapou de minha garganta:
_ Estamos no sul da Itália!!!
 
 
 
 
 
 
 
 



segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Crenças


 
Os Cérebros podem ser extremamente complexos. O cérebro humano contém cerca de 86 bilhões de neurônios, ligados por mais de 10.000 conexões sinápticas cada.
Apesar do  rápido avanço  científico, muito do funcionamento do cérebro continua um mistério. As operações individuais de neurônios e sinapses hoje são compreendidas com detalhamento considerável, mas o modo como eles cooperam em grupos de milhares ou milhões tem sido difícil de decifrar.

 
Apesar da chuva a sala estava cheia. Cheguei no prédio vinte minutos antes do início da formação do Círculo. O barulho da chuva em contraste com o silêncio absoluto das pessoas era maravilhoso. Passei o dia inteiro ouvindo conversas, gargalhadas, choros, reclamações, chuva, trovões e ventanias. Eu estava aliviada.
Entramos na sala onde se realizaria a cerimônia em silêncio, eu não conhecia ninguém mas as pessoas se olhavam com uma cumplicidade familiar, eu podia ler a seguinte frase nos seus olhos:
" Eu não conheço você nem os motivos pelos quais você está aqui, mas entendo perfeitamente."
Nos colocamos no centro da sala e nos formamos em um círculo perfeito. Eu me posicionei na lateral do círculo entre a porta de saída da sala e a janela, que era imensa. Eu podia ver tudo lá fora, a rua, as pessoas correndo, os carros, os comércios, mas o único barulho que ouvia era o da chuva. No centro do círculo já estavam colocadas as flores, plantas, sementes, objetos pessoais de cada um e um tambor.
A líder do Círculo começou a dar as instruções em uma voz suave e bem baixa e começamos a nos concentrar. Eu sabia que jamais poderia chegar a um estado de concentração muito profundo mas estar ali era essencial para minha busca.
Quando ela começou a tocar o tambor consegui imaginar a floresta e os animais, que era muito fácil para mim, mas era apenas imaginação. Talvez meu corpo tenha relaxado o suficiente para adquirir toda aquela espiritualidade e energia, mas era impossível mergulhar na cachoeira em minha imaginação e sentir a água gelada invadindo meu corpo em minha realidade.
Quando eu vi o tigre entrando pela porta de saída da sala, naquele prédio de concreto no meio da cidade de São Paulo, pensei que tivesse caído em um sono profundo. Eu continuava vendo todas as pessoas na sala, todos os objetos no centro do círculo e escutava o tambor perfeitamente, tudo estava igual e eu me sentia acordada, exceto pelo imenso tigre andando em minha direção.  Por que eu não estava na floresta? Por que um tigre tão assustador? Não podia ser um coelho? Ou mesmo um avestruz? O que aquele tigre estava fazendo no meio da sala? Analisando o fato de que ninguém estava levantando ou gritando, era óbvio que somente eu podia vê-lo. O imenso animal parou serenamente do meu lado e olhou para a janela por um longo tempo e depois olhou para mim de novo. Eu entendi que deveria olhar pela janela também.
Foi então que meu corpo começou a tremer de frio por causa da água gelada.
 
 
Eu fui criada em uma família católica. Fiz primeira comunhão, estudei em colégio de freiras, assisti missas, aprendi a rezar o Terço e li parte do Novo Testamento para as aulas de Religião e Catecismo, que para quem não sabe, é o ensino oral da religião Cristã, dos seus mistérios, princípios e código moral.
Eu sempre acreditei que existe algo no mundo além do que os olhos humanos podem ver. Comecei a buscar algo diferente nos livros mas descobri que ler não ajuda a entender as crenças, religiões, costumes, chame como quiser. Eu deveria praticar o que estava lendo. Cheguei muito longe na minha busca. Estive nessa viagem pelos últimos 10 anos e ainda não terminei. Vi, pratiquei e estudei muita coisa interessante. Porém vi também que  muitos são mercenários, muitos ostentam uma riqueza inalcançável e pouco realizam para ajudar, muitos usam a perspicácia para ganhar bens materiais e as pessoas ainda são extremamente inocentes quando estão se sentindo perdidas.
Porém, acreditei no inacreditável. Não sei explicar como, mas em meio a tudo isso, consegui entender o que faz as pessoas serem tão inocentes. Na verdade elas não são. Existe algo de milagroso que muda nossa energia, que muda nossa vida e que contribui para uma esperança e positivismo em um mundo de tragédias.
Tenho uma teoria científica, é claro, não sou tão religiosa assim.
Acredito no poder do cérebro humano. Acho que não temos consciência suficiente para usar este poder que nos foi dado. As pessoas acreditam que algo pode mudar a vida delas, se aquilo se torna realidade para elas foi o cérebro que tornou isso possível. Se uma pessoa, um cérebro pensante,  consegue tornar realidade o que ela acredita, imagina o que muitas pessoas com o mesmo pensamento conseguem fazer juntas.


 

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

O Dragão


Eu aprendi a me desligar do planeta mesmo estando totalmente consciente. Quando uma situação me entendia, ou me deixa muito nervosa, ou mesmo uma pessoa com um assunto que não me interessa começa a falar, eu me distraio e consigo ignorar totalmente o que acontece em volta ficando desligada. Eu consigo ignorar tão bem que fico completamente surda. Na verdade não é tão difícil. Todas as pessoas possuem essa habilidade, elas só não sabem desenvolvê-la.


A areia estava tão quente que decidi caminhar perto da água. O mar estava muito forte e as ondas eram altas dando a sensação de que a praia seria inundada e seríamos carregados para a floresta. Mas eu não estava com medo. Era apenas uma sensação estranha e eu sabia que isso era impossível. Na verdade, se acontecesse, somente eu morreria.
Estávamos caminhando em direção ao leste e tudo que eu conseguia ver era um pequeno morro de pedras quando a areia terminava e começava um verde forte infinito que imaginei ser uma montanha. Estava tão longe que eu não conseguia ver as árvores, somente um verde forte. Eu conhecia a pequena duna que estávamos quase alcançando após quarenta minutos de caminhada entre o mar e a floresta, mas o Dragão me disse que ali não estava a maior beleza do local e eu acreditei nele. Havia algo diferente no final da caminhada e eu precisava ver.
Eu achava que a diferença não era na floresta ou na praia, mas sim no que o Dragão queria me ensinar. Ele era diferente. As florestas são todas iguais, conheço desde criança. Eu vi. 
Conforme chegávamos mais perto da montanha, as árvores começavam a ficar mais visíveis e claras. Era de um verde-musgo bem forte e eu podia ver os formatos das folhas e das plantas e as pedras eram muito altas tornando a passagem impossível. Como sairíamos dali? Eu teria que voltar caminhando por toda aquela praia? Eu estava exausta e estava começando a escurecer, pensei que voltaríamos pelo rio.
_Não se preocupe com a volta, pegaremos o barco. Eu posso remar.
_Não tem passagem. Onde está o rio? - perguntei desesperada.
Quando ele se virou para segurar minha mão percebi pelo seu olhar que o tom de desespero na minha voz o tinha ofendido, afinal de contas, eu deveria confiar nele. Estendi minha mão mais uma vez cega de curiosidade e me deixei levar por entre as árvores.
Continuei seguindo o Dragão dentro da floresta e vi a noite cair em um piscar de olhos. Quando chegamos perto do rio ele me lançou um olhar irônico e perguntou se eu ainda estava com medo.
_Não estou com medo. O que vamos fazer agora?
_Caminhe pelo rio.
_O que?
_ Caminhe pelo rio.
Ele quer que eu entre na água? Apesar do rio ser muito raso, eu tive medo de encontrar uma cobra, pois era impossível ver onde eu estava pisando naquela escuridão. Foi então que meus pés na água fizeram uma explosão de cores parecida com um show de luzes de uma rave.




segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Estradas

Quando eu era criança meus pais viajavam muito. Sempre fiquei enjoada. Aquelas curvas, a estrada sem fim, a sensação de que o caminho parecia o mesmo por horas e horas e o destino não chegava nunca. A estrada era minha maior inimiga. Eu cheirava limão, comia biscoitos japoneses sem gosto, biscoitos de água e sal, pão francês, nada adiantava. Carro, ônibus, estrada reta, estrada com curvas, caminhos curtos, caminhos longos, nada me salvava daquela sensação sofrida. Mas quando finalmente a estrada terminava e o destino me encontrava, era como se eu estivesse acordando de um pesadelo. Aquele sentimento de alívio quando você acorda e pensa: " Foi apenas um sonho ruim" era exatamente como eu me sentia. Porém, eu nunca desfiz as malas. Mesmo quando a viagem era longa, eu mantinha minha mala impecavelmente arrumada. Minhas irmãs tiravam todas as roupas das malas e penduravam nos novos "cabides temporários". É claro que elas adoravam essa minha mania estranha pois sempre sobrava mais espaço para elas pendurarem todos os vestidos, calças , blusas, um infinito de roupas. Eu sabia que a estrada me esperava e que mais cedo ou mais tarde eu sofreria novamente. Então eu deixava a mala pronta. Conforme fui crescendo, comecei a escolher as viagens. Comecei a diminuí-las também. Eu não tinha mais obrigação de ir a lugar nenhum, eu podia simplesmente ficar em casa. Era maravilhoso, era libertador. Os feriados chegavam e eu respondia com o maior prazer:
" Não vou viajar, quero apenas ficar em casa".
Até que um dia...

_Jane, preciso falar com você. Sei que você vai dizer não, mas preciso tentar.
Joanna tinha um poder de persuasão incrível que eu nunca tinha visto em toda minha vida. Anos mais tarde eu conheceria alguém pior...
_ O que você precisa? Dinheiro? Um carro novo? Jóias? Um namorado? Não tenho nada disso!
_ Quero que você viaje comigo por oito dias no Carnaval. Por favor! Vai ser maravilhoso!
_ Não tenho palavras para descrever como odeio estradas. Não vou. Odeio Carnaval também, e odeio praias durante o período de Carnaval. As pessoas não sabem se divertir. Sempre acontece algo ruim. Você está louca! As praias ficam lotadas , e as estradas?? É o caminho para o inferno, que a propósito, está coberto de boas intenções.
_ Jane, é uma praia ecológica, deserta. Só existe uma pousada, dois acampamentos e vamos ficar em uma casa de pescador. O acesso é por um rio de água doce.
Pensei na falta de tecnologia do lugar. Pensei no rio de água doce. Não sei quando nem como ela me ganhou, mas a frase que viria a seguir me deixou completamente inquieta:
_Ninguém conhece este lugar. É escondido.. confie em mim.. é o paraíso.
Quando terminei de arrumar a mala me dei conta de que estava completamente louca. Mas sempre há algo muito atraente em um lugar que não tem sinal de celular, internet, rádio, televisão, prédios e infraestrutura.
Levamos mais de cinco horas para chegar. Eu desci do carro e só havia mata selvagem em volta da pequena casa. Só havia um cômodo e um banheiro, porém a casa era nova em folha. Ninguém se hospedara lá ainda, éramos as primeiras.
Segui a única estrada de terra da Vila , rodeada de mata alta e selvagem por uns 10 minutos. Finalmente encontrei areia, desci um pequeno degrau, no meio das árvores, que estava quase fechado por dois galhos imensos cobertos por folhas verdes e perfumadas.  
O que vi depois me fez desarrumar as malas.


 

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

 

Surreal

"Quando a vida lhe oferece um sonho muito além de todas as suas expectativas, é irracional se lamentar quando isso chega ao fim". - Crepúsculo
 
Para uma garota entediada como eu, Bill C. era a distração perfeita. Eu sabia que estava fazendo algo extremamente errado e que me arrependeria profundamente algum dia, mas por ser errado, era simplesmente sensacional.
Você sabe quando está se aproximando do perigo porque seu corpo sente e te envia todos os sinais. Eu sentia e ignorava todos.
 
O barulho do bar era ensurdecedor. Tinha dois andares e estávamos no segundo. No primeiro andar uma banda de rock estava se preparando para subir no palco e as pessoas já se reuniam no pequeno espaço sem mesas para usufruir de um momento em suas vidas no qual elas não precisariam pensar ou se preocupar ou ouvir uma conversa inútil, elas poderiam apenas ficar ali com seus copos de bebida, de olhos fechados dançando ao ritmo de uma ou duas melodias organizadas em versos e refrão. Não era preciso analisar o drama ou conteúdo da música pois ninguém conseguia entender a letra, era o momento mais relaxante de suas semanas entediantes.
Bill conversava comigo bem perto do meu rosto pois estava difícil escutar algo além da música e pessoas falando, tilintares de copo, gargalhadas e brindes.
Eu conseguia escutar mas não conseguia prestar atenção no assunto, lembro que era algo sobre relacionamentos e pessoas que se prendem a relações que não se encaixam , ou pessoas que mudam seu comportamento para se adequar as expectativas de outra e manter seus relacionamentos fúteis e falsos com medo de terminarem solitários, tendo que viver semanas entediantes e fins de semana em bares infernais com músicas indecifráveis.
Eu concordava com tudo que Bill dizia, mesmo quando não entendia, criava alguma frase me enrolando toda tentando parecer inteligente, mas a única coisa que me passava pela cabeça era beijá-lo.
Quando senti o chão tremendo não resisti:
_ Estou sentindo o chão tremer diferente, acho que a banda começou a tocar. Eu duvido que você desça comigo e me beije no meio da multidão...
Foi a coisa mais idiota que eu já disse em toda a minha vida, mas por algum motivo que até hoje eu desconheço, funcionou. Talvez pela palavra " duvido" , talvez por ele ter encarado como um desafio, ou pelo simples motivo de querer me beijar também.
Foi surreal... eu fiquei ali parada esperando acordar. Mas eu não acordei, eu simplesmente vivi os melhores dez meses da minha vida.