A Balsa
Abri os olhos com dificuldade. Continuava sonhando com o mesmo tigre mas desta vez foi um sonho tranquilo. Não senti nenhum medo. As paredes cobertas por formigas eram bem piores.
Apesar da visão embaçada comecei a enxergar uma forma triangular acinzentada um pouco distante de mim, mas perto o suficiente para me dizer que aquilo não pertencia ao meu quarto. Apertei os olhos com força e a imagem começou a se tornar mais clara... era a parte da frente de um scarpin feminino cinza. A mulher elegantemente vestida estava lendo um jornal em uma língua que não era Português nem Inglês. Olhei em volta no pequeno cubículo e vi que minha irmã dormia tranquila na minha frente com os pés apoiados em uma mala de viagem quase do meu tamanho. Senti o cubículo inteiro vibrando e balançando e percebi que estava em um veículo em movimento. Olhei pelo vidro da janela e vi uma das paisagens mais bonitas que já havia visto na minha vida. As montanhas passavam muito rápido pela janela e só deixavam um borrão verde que quando sumia de meus olhos davam espaço para enxergar o azul de um mar imenso. Do outro lado eu só via a porta do cubículo e um corredor. Quando entrei no corredor, olhei pela janela do outro lado do trem e vi mais montanhas. Sim, estava em um trem em movimento. Andei pelos corredores do trem muito devagar e um tanto desequilibrada observando algumas pessoas que viajavam em pé e outras dormindo nos cubículos. Tive que passar para outro vagão para encontrar o banheiro e quando voltei resolvi viajar um pouco em pé. As paisagens eram todas iguais, muitas montanhas, muito mar e poucas cidades. Viajei ali observando tudo por duas horas.
Comecei a pensar em outra situação na minha vida, a mudança de cidade que acabara de fazer e na facilidade da minha adaptação. Era fácil abandonar e era fácil recomeçar. Comecei a gostar da idéia e de como minha personalidade se encaixava perfeitamente na situação. Eu entendi que essa característica era um ponto extremamente positivo na minha vida e que eu poderia me mudar quando quisesse. Poderia morar onde quisesse e quando quisesse.
Comecei a pensar em outra situação na minha vida, a mudança de cidade que acabara de fazer e na facilidade da minha adaptação. Era fácil abandonar e era fácil recomeçar. Comecei a gostar da idéia e de como minha personalidade se encaixava perfeitamente na situação. Eu entendi que essa característica era um ponto extremamente positivo na minha vida e que eu poderia me mudar quando quisesse. Poderia morar onde quisesse e quando quisesse.
Quando sentei no banco do cubículo a mulher elegante não estava mais ali. provavelmente desceu na última estação que paramos. Estávamos sozinhas novamente, minha irmã respirava como se estivesse dormindo profundamente e não quis acordá-la apesar de o trem ter parado bruscamente onde só havia mar.
Olhei por todos os lados procurando uma estação e não encontrei nada.
O trem começou a se mover em uma curva e eu comecei a ficar apavorada. Não entendi como ele podia se mover na direção daquele mar azul.
Quando estava quase levantando para voltar ao vagão do banheiro vi as janelas de vidro serem cobertas por uma cortina de aço cinza e escura. O trem começou a escurecer aos poucos e as janelas foram cobertas com aquela cortina de aço uma por uma. O trem continuava em movimento e acordei minha irmã.
_ O que é isso?
Minha irmã olhou em volta e imediatamente levantou com uma expressão de felicidade no rosto:
_ Vamos!! Vamos subir para ver o mar, estamos entrando no porão de uma ferry.
_ Porão??? Como assim??? Ferry?? Balsa???
Quando eu desci do trem e olhei em volta, pude perceber que aquele lugar era realmente um porão, era inacreditável, estávamos em um porão gigante de aço "com trem e tudo"!
Minha irmã desapareceu atrás de uma porta e eu corri encontrando uma escada. Subi as escadas apavorada e quando abri a porta estávamos em uma enorme balsa em movimento. O azul do mar era algo que eu nunca havia visto na vida. O caminho a ser percorrido por água era muito curto e conseguíamos ver a cidade nos esperando para continuar a viagem de trem. Foi algo indescritível e se minha irmã tivesse me contado que teríamos que passar por essa parte da viagem eu teria batido o pé e dito que sentiria muito medo e não iria. Foi muito bom ter sido surpreendida e superado um medo por não ter outra escolha.
Após mais duas horas de viagem chegamos na nossa estação e quando eu desci, avistei a Taormina que esperava. Era perfeita, exatamente como nas fotos. Aquele mar imenso de um azul intenso indescritível, as tradicionais casas brancas espalhadas pelas montanhas, a praia de pedras, as construções antigas.
Quando chegamos no quarto do hotel e vi o vulcão pela janela um grito escapou de minha garganta:
_ Estamos no sul da Itália!!!





